4 de fev. de 2009

nao tenho projectos nem planos

Não tenho projectos nem planos.
Tenho sonhos.
Não tenho passado nem futuro,
Tenho uma bagagem cheia de presente,
De sorrisos e de sol.
Mas hoje acordei apaticamente
Não triste. Sem dor, sem ilusão,
Sem esperança. Hoje acordei a flutuar
Por não ter futuro, nem projectos,
Acordei com vontade de dormir mais
E sonhar para alcançar
Alguns sonhos.
Acordei cansada por falta de emoção
Por falta de querer, de não querer,
De ambicionar e não ambicionar,
Por falta de paixão.
Hoje acordei como sempre quis ser –
- nos tempos em que havia vontade,
Em que havia um querer - e estou aqui,
Apenas por estar. Ando por aqui, apenas por andar.
Sem prazos para a felicidade,
Sem pressas de viver.
Hoje acordei como sempre quis ser,
Senti a vida bem temperada.
E continua a (não) faltar aquilo que sempre me fez falta.

CS, 18-07-08.

29 de jan. de 2009

' Poemas de Amor.

Há poemas que curam
E matam no mesmo verso.
Há poemas autenticamente assassinos:

E esses são os poemas de Amor.

CS, 24-01-2009

24 de jan. de 2009

' Poema.

Os olhos dela fitam-me, brilhantes
Por não ser eu quem sou.
E pelas áleas do meu caminho
Fito rosas do pouco que alguma vez serei.
Os olhos dela fitam-me e sigo,
Sigo, calma, segura
De quem sou. E de repente
Extravagantes estrelas me rasgam,
Penetram-me, desnudam-me, mostram-me.
A mim,
Insegura, genuína.
Tão eu, tão eu, tão tua, tão deles,
Tão nada, tão tudo.
Tão tão.
Mas espero em vão. Espero em vão,
Espero livre, espero aqui.

E fico.

CS, 16-06-2008

18 de jan. de 2009

' O mundo só existe...

... porque nós o vemos.

CS

30 de dez. de 2008

' Vida.

A flor que cresce
O sol que rejuvenesce
(todas as manhãs, sem se cansar)

A tua alma que esmorece
(sim, a tua)
E o mar que beija a luz da lua,
(Todas as noites, sem se cansar)

Antes que a vida cesse
E ceda a essa escuridão que escorre
Beija-me, todas as tardes, numa esquina perdida
(sem te cansar)
Beija-me, beija-me, esse beijo que morre,
Beija-me, antes que chege a morte da vida.

C.S.

24 de nov. de 2008

' Tu.

Tu, que estás aí, que não existes.
Eu, que não sou nada e não creio existir.
Serei eternamente aquela que escreverá em segredo
Filosofias nunca antes escritas
Ou escritas tão silenciosamente quanto as minhas
E pensadas por mil almas que
Pensam saber a imensidade da razão de ser dos seres, e do ser
Se é que razão e seres coexistem de facto.
Aparte de tudo o que me preenche este vazio
Eu não sou mais que o vazio que preenche o tudo das coisas.
Estou em cada partícula do espaço,
Em cada partícula do ar que respiro,
Em cada verso, em cada pensamento que se dissipa no tempo
Esse
Que o Homem criou na esperança de orientar
Um estado de alma desorientado e inorientável
À deriva num mar sem rumo
Debaixo de uma Lua que queima
E um Sol que ilumina. Ilusões?
Certamente.
Também eu vivo numa.
Nessa que faz vaguear por aí todas essas almas desencontradas
Na esperança de se encontrarem ou serem encontradas!
Na ilusão de Te encontrar a Ti
Tu, que estás aí,
Tu que não existes.
Porque neste próximo instante
Apenas serei Eu.
O Nada que creio existir num tempo errante.

CS

12 de nov. de 2008

'


2 ANOS de existência deste blog :)

e pra 'comemorar', fica aqui um poema fantástico que alguém (não sei quem) me deixou em comentário (como resposta a este poema):


Olho-te sem te dizer nada o meu olhar
e a fuga é tua
e a fuga é minha
e essa triste indecisão é nossa!

Abre a porta, sai, respira e volta
e traz contigo teu verso e tua prosa
dos meus romances desejosos de ti
quando por ti minha alma roga.

Olha em nós o outro lado da palavra
e beija-me e abraça-me e diz
tudo o que preciso for para eu ser feliz...
e a tua alma,
e a minha alma.

Amor é feito lágrimas e sonhos
e a rotina é-nos o único mal enfadonho
sendo mesmo o deserto desses nossos oásis.

Desejo-te ver quando o meu olhar te olhar
e deles tudo nos explicar
dessas nada outras parasitas palavras,
sendo de amor, mudas de mágoas.

Perfeito :) @

24 de out. de 2008

' As Palavras fazem Amor

As letras fazem amor.
Contigo, comigo, entre elas.
Assim nascem as belas palavras
E delas as mais belas frases
Sem sentido
E incompreensiveis – é um dom.
Tomara a qualquer homem
Conseguir entendê-las e conhecê-las
Tão bem quanto entende e conhece
O corpo de uma bela mulher
Que dorme a seu lado
Com uma respiração sôfrega.
Mas shiu!
Isto é um segredo: como um mistério.
Silencioso.
Quase tão efémero quanto esta ideia,
Quase tão efémera quanto uma conversa entre mim e as palavras
...que queres ouvir.

( C.S., 22-11-2007 )

24 de set. de 2008

'

O eco do fundo dos teus olhos
Refunde-me para as sombras do jardim
Que é o teu corpo.

E absorta fujo, escondo-me,
Porque te tenho, porque me tens,
Porque sou eternamente tua.

Mas algures no meio do fulgor
Do teu abraço
Surge um navio prestes a naufragar.
No jardim do teu corpo,
Navega em mar verde,
O navio prestes a naufragar.

Algures no meio de todo este fogo
Que arde num delírio delirante
Surge a minha âncora,
De ferro forte, feio, esquecido
De onde encontra meu porto seguro.

Oh, se o abandono soubesse
Onde encontrar essa estrada
Que me leva...

Se essa voz soubesse
Onde cantar minha tristeza...

Então saberia onde se encontra o princípio do fim
Encontra-se em ti e em mim,
E no barco que te naufraga,
Nas sombras que nos refundem,
No vento frio que se faz sentir
Nesse teu jardim, ao fim da tarde,
Na poeira de um entardecer já antigo...

Sim, o eco do fundo dos teus olhos
Refunde-me para as sombras do jardim
Que é o teu corpo.
E, sós, amamo-nos, como se jamais
Amanhã houvesse.

CS, 08-09-08

29 de ago. de 2008

' Qualquer.


Sou uma qualquer,
Não diferente de todas as outras
Quaisquer,
Nem diferente de qualquer
Nenhuma.

Sou uma qualquer,
Tão igual por ser diferente

Mas não diferente por ser igual
A qualquer igual ser,
Enfim,

Qualquer alguma.

Sou uma qualquer,
Espero por qualquer sorriso,
Qualquer beijo e qualquer sonho
Em que sonhe que não sou, afinal,
Qualquer uma.



CS, 12.08.2008

29 de jul. de 2008

'

Porque a vida nem sempre tem que fazer sentido...
...hoje morro, para ser Tua.

29 de jun. de 2008

- Poema.

Foto: olhares.com

Nos recônditos da minha sensata lucidez
Encontro picos excêntricos, excentricamente
Loucos.
Nesta realidade que me prende, que me puxa,
Que me veste, que me insiste,
Revisto-me de liberdade, de abundancia
De luz.
Na amplitude da consciencia,
Na totalidade do ser que compreende,
Dobro esquinas de brilho,
Percorro estradas de extravagância,
Mergulho em mares de vento solto
Até doer.
Nesta alma matematicamente morta,
Estupidamente viva,
Até doer choro, até doer encontro o choro
Que me faz, apenas, ser.

CS, 08.06.2008

29 de mai. de 2008

- Hoje...

... eu amo o conhecido e o anónimo, o singularmente comum, o mais comum do essencial, o mais louco do desconhecido.

24 de mai. de 2008

Uma explosão de cores
E luzes ofuscantes a cada
Instante que
Brilha que
Ilumina se
Eu assim o quisesse.
Ah, que movimento, que
frenético, tão
cililante e luminoso, que
aquece e aquece, e aquece.
E arrefeceu.
Ah, que sombra, que
Escuridão que
Brilha.

CS. 25.01.2008

18 de mai. de 2008

Admito e resigno-me:
Sou só um ser humano...
(ai, razão, razão,
Ai, peso da ciência).
Nasci, irremediavelmente,
Com este desejo, tão repetidamente,
De querer encontrar a Felicidade
(como quem quer encontrar, repentinamente,
O brilho de uma estrela ofuscante).
Mas só posso ser feliz
Se única inigualável irrepetível
For
Original.
Talvez seja.
Mas e depois, no final?
Talvez seja feliz.

Porque a verdadeira ambição do Homem
Não é ser feliz.
É ser feliz sem se questionar porquê...
Assim. Porque sim.

CS, 24.01.2008

8 de mai. de 2008

Não há duas flores iguais no mundo
Nem mar que não seja salgado
Ninguém sabe que a verdade do Homem
É ser tão limitado, e
Esquecem-se de perceber
Que o maior limite da razão
É entender e entender, o que deveria,
Simplesmente,
Viver. Não sei
Se a Lei tem cadastro
Não sei se hei-de duvidar, oh mar com sal,
Não sei, não sei,
Da minha sanidade mental. Não sei,
Hipocrisia limitada,
Até tu perfeita és,
Utupia tão sonhada!...
Não sei.

CS

29 de abr. de 2008

- Não sou poetisa.

Apenas vivo em poesia, sem a escrever.
Vivo em silêncio num mundo gritante.
E vivo num choro
Sem derramar uma só lágrima.
Respiro liberdade
Num mundo tão cheio de regras.
Vivo para as sensações,
Quando todos procuram explicações,
Análises! Entendimento nauseante...
Ah! Que lógica entediante.
Que sono de não entender,
Que fome e sede de apenas ser...
Existir e ser e nada, e nada mas
E tudo ser.

Isto sim, é poesia.

Mas finjo. Finjo
E sempre fingi.
Qual teatro, qual encenação
Absorvida por sonhos, interpretada
Sem nunca o dever ser.

Mas sou banal. Sou banal
E sempre fui...
...banalmente importante.

Então fui, e sempre fui.
E fui, e importei, e finji,
E esqueci: e nunca ninguém soube.
E se soubessem, o que saberiam?

Talvez tudo e nada,
Talvez o soubessem saber
Talvez o devessem saber?
E talvez soubessem
Perceber que o mistério
Das coisas é precisamente e tão somente:
Percebê-las, analisá-las, explicá-las.

Amar? Não, nunca.
Amar com sentido, nunca.
O único mistério é não
(apenas) amar,
É não amar com sentimento,
Amar com sentido.

Ah, sensações...

CS

12 de abr. de 2008

- Absurdo da Existência

Sou feliz.
Sou poetisa.
Minto e finjo,
Para ser mais poetisa.
Para ser mais feliz.
Sou livre e tudo é meu.
Todas as coisas me bastam.
Tudo me ama com a mesma intensidade
Que eu amo o tudo.
Mas depois, o que resta não se vê.
O que resta não há.
O que resta não existe.
O que resta não insiste
Em existir
Nem existe
Para insistir.
E no fim de amar tudo, de querer tudo, de viver tudo,
Acabei.
Acabei no absurdo de existir, no absurdo de tudo amar,
De tudo querer, no fundo, viver.

CS

мєηιηα νσgυє @

8 de abr. de 2008

- Cansada de Viver.

Esta existência
(Já) Não me sacia.
É demasiado
Simples e complexa.
Ou complexamente simples.

Estou cansada de viver,
De ser, de ir,
Apenas por não querer ficar...

Cansada deste sítio,
Deste sítio imaculadamente imperfeito,
Destas pessoas profundamente supérfluas,
Destas conversas longamente curtas,
Destas coisas.

(Já não vos posso ouvir!, Já não te posso ouvir! Sempre as mesmas conversas, sempre as mesmas coisas!)

Estou cansada de Viver !
Cliché? Sim.
Mas que é a vida, senão cliché?
Que é a felicidade, senão um desejo
Repetidamente procurado?

(Incansavelmente e estupidamente
Procurado...)

Hoje quero ficar aqui,
A ouvir a chuva lá fora,
Intercalada com o sabor do silêncio.
Quero ficar aqui, apenas
Até que toda a raiva,
Todo o ódio, todo o amor,
Todo o desdém, toda a frieza,
Toda a indiferença em ser igual
Desapareça.

Quero só ficar aqui
À espera do Sol.
(À tua espera).
À espera de nada
(À minha espera).
Quero ficar aqui só porque sim.

Quero viver, sentir, saber, esquecer, lembrar,



E morrer
Para o Mundo.

CS, 08 Abril 2008

мєηιηα νσgυє @

4 de abr. de 2008

- Tabacaria.


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



Álvaro de Campos


Um dos meus poemas favoritos, um dos MELHORES de SEMPRE, da autoria do mais GENIAL poeta da Humanidade, Fernando Pessoa.



мєηιηα νσgυє @

29 de mar. de 2008

- Beleza Vs. Mensagem II

Estou cansada que me perguntem
‘o que raio fumaste antes de escrever isto?’
Depois de acharem a maior idiotice à face da terra.
Será que não conseguem ver a falsidade dos poemas bonitos?
Sim, aqueles que rimam, aqueles harmoniosos
Aqueles que falam em: flores e amores, dor e amor.
Supérfluo.
Prefiro escrever assim: uma coisa horrorosa,
Mas ao menos poder dizer que é uma coisa horrorosa
Que saiu cá de dentro
E está transposto para o papel (quase) tal e qual
Quanto a ideia nasceu na mente, na alma.

Se um dia escreverem uma biografia minha,
Apenas digam que sou uma anónima, e não sou ninguém.
Apenas digam que gosto desta vida sossegada e que a vivo o mais que posso
(e se não vivo mais e melhor é porque não quero)
Não quero que me conheçam por fazer isto ou aquilo.
Eu mudo o mundo, existindo, tal como tu, que estás aí a ler desse lado.
Que interessa quem fez? Interessa, sim, o que fez!
E por isso espero um dia poder ter o orgulho de ver as minhas ideias –
- por mais estúpidas que sejam –
Expandidas,
E poder continuar a ir tomar café onde vou todos os dias,
Poder continuar a passear e a admirar as fantásticas ruas da cidade de Lisboa ao fim de tarde,
Poder continuar a ir jogar car races no salão de jogos das Amoreiras.
Enfim, poder continuar a parecer a pessoa que transpira mais normalidade à face da Terra.
Quero poder continuar a viver neste cubículo, igual a tantos outros no Mundo:
...e que sou eu, senão mais uma cidadã do Mundo?...

C.S.,23-11-2007

мєηιηα νσgυє @

24 de mar. de 2008

- Beleza vs. Mensagem I

Não há certo nem errado: há argumentos.
Não há bom nem mau: há o Homem.
Todos os poemas, ou são lindos,
ou têm uma mensagem.
E a maior fraqueza da razão é entender tudo
excepto que não pode entender nada:
a mensagem de um poema feio,
nem as palavras em mim,
nem eu nas palavras.
E este, que tal? Está simples, directo?
Está lindo, ou antes tem mensagem?

мєηιηα νσgυє @

20 de mar. de 2008

- Vida efémera, pensamento eterno.

Tudo o que vivemos é isso mesmo, tudo.
Mas tão pouco – tudo o que pensamos
É nada. É a vida. É tudo.
A vida passa numa rajada de vento.
Numa gota de chuva. Num raio de sol.
No fim, nada resta senão a sensação
De que foi tão rápido, de que foi tão efémero.
Mas no pensamento fomos tudo – e nada.
Porque sendo nada nem nada vivendo,
Fizemos tudo, vivemos tudo, tivemos tudo,
Amámos tudo porque tudo nos bastava
Assim só, só porque sim, sem porquês.
Porque sentimos tudo,
Respirámos as sensações
E apenas porque o sonho existiu. Apenas
Porque eu e o sonho coexistimos.
E tudo bastou, tudo bastou.
Ali, assim, como era,
Disperso, compacto, unicamente único.

CS

мєηιηα νσgυє @

12 de mar. de 2008

- Não sou poetisa.

Não sou poetisa.

Apenas vivo em poesia, sem a escrever.
Vivo em silêncio num mundo gritante.
E vivo num choro
Sem derramar uma só lágrima.
Respiro liberdade
Num mundo tão cheio de regras.
Vivo para as sensações,
Quando todos procuram explicações,
Análises! Entendimento nauseante...
Ah! Que lógica entediante.
Que sono de não entender,
Que fome e sede de apenas ser...
Existir e ser e nada, e nada mas
E tudo ser.

Isto sim, é poesia.

Mas finjo. Finjo
E sempre fingi.
Qual teatro, qual encenação
Absorvida por sonhos, interpretada
Sem nunca o dever ser.

Mas sou banal. Sou banal
E sempre fui...
...banalmente importante.

Então fui, e sempre fui.
E fui, e importei, e finji,
E esqueci: e nunca ninguém soube.
E se soubessem, o que saberiam?

Talvez tudo e nada,
Talvez o soubessem saber
Talvez o devessem saber?
E talvez soubessem
Perceber que o mistério
Das coisas é precisamente e tão somente:
Percebê-las, analisá-las, explicá-las.

Amar? Não, nunca.
Amar com sentido, nunca.
O único mistério é não
(apenas) amar,
É não amar com sentimento,
Amar com sentido.

Ah, sensações...

мєηιηα νσgυє @

2 de mar. de 2008

- Hoje nada importa.

Quando posso, deixo de ser
Eu.
E vou para o deserto, deserta de ser
Ainda mais eu.
Quando consigo, desprendo-me
E vou.
Longe do que fingo ser,
Longe do que sou,
Ainda mais longe do que penso ser –
- e, afinal, quem sou?

Hoje nada importa.
Alguma vez importou?
Fechei a porta
Devagarinho, ninguém reparou.
Se alguém alguma vez reparar, então
Fecho as janelas do sonho para sempre, então
Vou para o deserto para sempre, e então?
Hoje nada importa.

CS

мєηιηα νσgυє @

28 de fev. de 2008

- Utopia do Tempo.


Utopia.
O tempo é (perfeita)
Utopia.
O tempo são as horas
(perfeitamente) cornometradas
Do dia.
E quando chega a noite
A sombra é (perfeita)
Escuridão.
É quando o gato preto sai
Quando o gato preto brinca
É quando o perfeito cai
Para que eu o sinta.
É quando acaba tudo em silêncio
quando acaba tudo em poesia:
é quando o tempo volta,
quando volta a utopia.


CS


мєηιηα νσgυє @

24 de fev. de 2008

- inconsciencia desejada

Olhei e não vi mais.
Escutei e o som calou-se.
Falei e mais não se ouviu,
Neste silêncio, que assim fosse.
Senti deslizar meu pensamento
Pela vontade de sentir apenas
E a vontade se rebelou contra a minha
Inconsciência (desejada).

CS

мєηιηα νσgυє @

18 de fev. de 2008

- Vazio.


Vazio. Um vazio e absolutamente
Mais nada.
O silêncio, a lágrima egofónica,
E aquela luz fria da madrugada.
Um grito tão gritantemente silencioso,
Desesperadamente sufocante.
A alma que mente – a alma que sente
Porém, o instinto crescente. Abundante.


Porque há dias assim, em que me sinto no fundo do poço, e o pior é que não tenho razões para tal. Dias em que só quero ficar na cama, a escrever linhas sem sentido - linhas com sentimento. Dias em que só me apetece chorar e, quando choro, choro mais por não ter razões para chorar, do que por outra coisa qualquer. É tão grande, tão grande este vazio. É tão grande...


SHINING*

14 de fev. de 2008

- <3

Dormir junto do teu peito
Com o bater do teu coração
É dormir no paraíso.
Duvidas? Então chega-te aqui.
Mais perto.
Assim, pronto.

Deixa-me sussurar-te ao ouvido
Tudo o que realmente sinto
Deixa-me dizer-te que esse tudo
Passa por me sentir a unica pessoa no mundo
Que tem a sorte de te amar.
Que és o único que me consegue despir
De preconceitos, tabus, medos,
Preocupações
E que por momentos eu me sinto verdadeiramente
Verdadeira e única
Inigualável, e importante,
Igual a ninguém.
E orgulhosa por poder dizer que
Ninguém pode dizer que
Alguém sente o mesmo.

Por instantes nada mais importa,
E a minha vida apenas serve para pertencer-te.

Por momentos somos um só, e somos mais que o Mundo inteiro.

Por momentos, nós – e com tanta beleza, essa imaculada beleza que as coisas têm apenas por existirem.

Mas a minha divagação perdeu-se algures entre
Sussurar-te ao ouvido que ficaria assim para sempre
E as palavras deixarem-se guiar pelo prazer desse assim.
Então só me resta acabar ao dizer,
Que estas palavras?
Não são nada, absoluta e certamente nada,
Se as comparo à imensidão em que teu olhar me envolve.

C.S., 21-11-2007

SHINING*

Obrigada por este dia (14 Fevereiro 2008), obrigada por tudo mesmo, Gosto-te Amigo Colorido :D @

12 de fev. de 2008

- Dor de pensar...

...ah, esta dor de saber.
Que nos resta hoje?

Apenas mais um dia.
Mais um dia
Para tentar, insistir,
Renascer,
Num início original reincidir.
Ter orgulho na loucura,
No desespero,
Na solidão,
No fingimento,
Na inconsciencia
Da mais pura felicidade...
Continuar a acreditar que um dia,
A lua e o sol darão a mão.
Ah, renascer. E talvez
Começar tudo de novo...
...como nada sei; e como
Sei-o bem.

(CS, 25.01.08)

SHINING*

8 de fev. de 2008

- Oh Mundo

Diz-me, Oh Mundo,
Como te chamas.
De onde vieste
E o que vieste fazer,
E o que fazem estes Homens
Contigo.

Eu sou apenas mais uma
Visitante
Juntamente com aqueles
Homens
Que um dia vieram
Tentar explicar-te
Mas que por tanto tentarem entender
Esqueceram-se de entender
Que apenas deviam contemplar-te
Amar-te e viver-te.

Como se fosse o último momento de sempre
Em que pudessem espreitar pela janela.

Então diz-me, Oh Mundo
Onde deverei eu
Colocar a Perfeição?

C.S., 15-11-2007
SHINING*

2 de fev. de 2008

- Sou aquela


Sou aquela cujo espelho
É fielmente fiel.
Aquela que pinta
Com um doce pincel
Este tão frenético processo
De multiplicação.
Sou aquela cuja alma
Se espraia no mar.
Aquela cuja alma
Implora por brilhar,
Mas sem fulgor nem paixão.
Ah, sou aquela e aquela e
Aquela ali,
Aquele abrir de rosa à espera
De um contemplar
E mais
Aquela, aquela,
Aquele anseio de alma
Cheio de mudos ais...
Esta. Cuja imagem se esqueceu
De retratar.

CS 24.01.2008


SHINING*

28 de jan. de 2008

- Emprestar-te-ia a alma

Emprestar-te-ia o céu espelhado em mim
E as ondas do mar do meu cabelo
Esse cheiro a rosas de que tanto gostas
E a alma, se precisasses dela.
Mas sou quem grita fundo para te ter
E as palavras saem mudas,
E ali
Dispersas
No tempo
Nos encontramos. Eu e tu,
E o céu e o mar,
E dá-se o beijo entre o horizonte e o luar,
Porque no fundo?
Vim a este mundo, para te amar.

CS
SHINING*

24 de jan. de 2008

-Não quebres o meu Silêncio...



Sinto, não sei o quê nem porquê
Sinto. Neste ir e vir de dúvidas.
Perguntas-me.
Ouves as palavras que queres ouvir,
Ou não.
Mas que a muito custo conseguiram ser encontradas.
Só que o sentido que lhes dei perde-se.
Antes de poderem juntar o teu coração ao meu.
E no espaço forma-se o desejo patente de nos amarmos.
E de não deixarmos que esta prisão psicológica
Desmorone juntamente com... o tudo que julgamos existir.
De olhos embargados te peço:
Entra, invade, controla, comanda.
Mas, por favor...
Não quebres o meu silêncio.

C.S.
SHINING*

16 de jan. de 2008

- o mar que me rebatava o ser

Escrevo aquilo em que acredito,
aquilo que desejo, aquilo sem sentido -
parto sem dor,
o teu simples beijo,
a utopia do perfeito,
do amor,
do homem que fez sem ter feito.

e não passo de uma alma com saudade,
uma alma ansiosa por sanidade, mas chamo
áquilo que acontece
quando o tempo se encontra no tempo,
quando o espaço se perde no espaço
de verdadeira liberdade que amo.

e apenas restam vestígios da impureza,
apenas vestígios de Saudade
de quando eras tu apenas mar, mar, apenas mar,
apenas uma onda que me rebatava o ser,
apenas uma onda que me vestia e me envolvia,
que tinha nascido para me amar.

ah! esta percepção imediata que nasci pra te pertencer...

C.S.


SHINING*

10 de jan. de 2008

- Mentir

É meu todo o tormento
É minha toda essa angústia
Não levada pelo vento
Num tempo
Que existe mas não o quer.
A vida é esse tormento é
Essa angústia é
O que não está aqui ao pé.
É ser o que não é, sendo.
É só isso:
Mentir mais para ser mais.

C.S.
SHINING*

8 de jan. de 2008

- Liberdade


'A verdade é que temos medo de ser livres, medo de gritar onde quer que seja sem ser reprimido, medo de gostar por não saber quem está do outro lado, medo de correr, pular, enfim medo de ser eu.

Esse é o problema, subjugados nesta sociedade que reprime qualquer acto menos normal ou mais ousado que nos julga sem saber quem somos, nós fechamo-nos e temos medo de ser um EU livre. '


Por 'jotas' num comentário ao post anterior neste blog.


A verdade é esta mesmo - somos julgados sem ninguém nos conhecer verdadeiramente; falam da nossa vida sem ninguém ter sequer nada a ver com o assunto; reprimem o que é diferente, e é por isso que somos todos iguais uns aos outros! A sociedade reprime o homem e estraga-o totalmente. Queremos gritar, mas a voz fica muda e transforma-se em silêncio. Um silêncio cheio de clichês, cheio de 'valores' e 'princípios', cheio do que dizem que devemos ser, o que não devemos fazer, o que está certo, o que está errado, imposições, regras! É esse silêncio que torna as pessoas falsas, faz delas serem o que não são...
Realmente, deveríamos saber ser mais livres... eu deveria saber ser mais livre...


SHINING*

4 de jan. de 2008

- Amar as coisas apenas porque elas existem.

Lê estas palavras.
Não as entendas. Guarda-as.
Elas mordem-me como se me pedissem
Que apenas as escrevesse
Sem tentar rimar – há por acaso duas flores iguais no mundo?
Não.
E é preciso ler, e ler muito, e não achar nenhum sentido.
É preciso odiar.
E é preciso chorar com lágrimas de quem realmente ama:
Sem nenhum motivo.
É preciso olhar para as coisas e simplesmente amá-las,
Porque simplesmente elas existem.
*
Ama o tudo apenas porque o tudo é algo que é:
Ainda que não saibas bem o que é.
Ama o nada apenas porque o nada existe:
Ainda que penses que não.
Sente o vazio, o quanto ele te aperta
Porque ele está lá:
Ainda que sintas que nada há no vazio – pois então se nada há no vazio, então há tudo,
Há algo: há o silêncio.
Escuta-o!
Ama as coisas apenas por existirem.
*
Esta loucura faz bem, ajuda a respirar a liberdade.
sabe bem imaginar árvores cor-de-rosa
e bailarinas de tutu a jogar futebol
faz bem fazer male faz mal fazer bem

faz bem olhar para ti e achar que até me amas
pedir-te um beijo em pleno pranto
faz bem ser louco e livre
e verdadeiro, essencial, perfeito
faz bem não tentar perceber porquê
perceber apenas que as coisas são
porque são e existem: e é tudo.
é mais do que eu sei dizer.
*
C.S. (3 poemas sobre o mesmo assunto)
SHINING*