26 de abr de 2011

o que foi, o que é
o que podia ter sido,
é a minha realidade.

estou (completamente)
perdida
num mar de incertezas,
das minhas incertezas.

insignificantes,
esmagam-me,
todos os dias, a todas as horas,
vagas,
porque não quero preenchê-las.

não fico, não vou,
não sei, não vivo.

tudo vai dar ao mesmo,
no final das coisas.

16 de abr de 2011

Fui
Longe correr e morrer
ideias livres tão soltas em fusão
num embrulho envolvente
tão puro, tão intenso...
foi quase como uma coisa que
dói, mói, mas no fim sabe bem.

extensidade doida
vastidão esmagadora
peso parvo, não obstante, leve
na incerteza de ser tão certo.
escrevo agora, porque sim
porque posso, porque quero,
e porque não...

vou, porque morrer é nascer
numa outra realidade paralela
dimensão rica em presentes, futuros
e passados alternativos
como se tivesse significados igualmente
diferentes entre si.

o que foi, o que é,
o que podia ter sido,
nunca o foi porque não é.

Cláudia & Daniel

20 de fev de 2011

Random.

Esmagador
Ensurdecedor
Este silêncio absoluto
E o absurdo
Desta banal e repetida
Existência
Corrói, como ácido,
Todo e qualquer equilíbro.
Caminho em direcção ao
Caos.
E a desordem total
Apodera-se de mim.
Gosto de sentir a liberdade
Em estado puro. Mas
É demasiada e dói. Queima.
Quero um pouco menos.
Um pouco menos de tudo.
Um pouco menos de nada.
Um pouco menos disto.

Estou condenada à trivialidade
Da minha própria mente
Como um corredor da morte
Que acaba num completo acaso
Na completa falta de sentido.


Neste quarto existem
Buracos negros
Vazios que doem.
Silêncios que gritam.
Lacunas por preencher.

6 de jan de 2011

' "Filosofar é aprender a morrer."

Nestes últimos tempos tenho andado numa crise existencial... constantemente a colocar-me questões a mim própria às quais sei que nunca vou conseguir responder... deixei que a minha mente fosse por caminhos perigosos, daqueles que, uma vez que se entra, já não se consegue sair... (o mais irónico é que entrei por estes "caminhos" aos 15 anos, quando comecei a escrever aqueles poemas que nem todo o mundo entende na sua essência, mas enfim, eu sei que entendo, e depois dessa fase fartei-me de me questionar a mim mesma e entreguei-me completamente à trivialidade da vida e às coisas mais superficiais... agora deu-me para voltar)... não estou deprimida e já pensei em suicidio mas nunca em cometê-lo na realidade... porque amo demasiado a vida. o que é contraditório... desde os 15 anos que penso nestas coisas. fecho-me em copas, e simplesmente penso. muitas das vezes quero exprimir-me por palavras e não consigo. consegui expressar-me em alguns dos meus poemas, a partir daí parece que perdi "a coisa"... sei que só ando a pensar, e a pensar, e a pensar... no absurdo da vida. no absurdo completo que é a vida. de como tudo é completamente repetitivo, até a própria existência... ninguém é ninguém, todo o mundo é simplesmente cópia... eu não sou eu, eu sou uma cópia de alguém... provavelmente nunca serei ninguém... (e esta questão mais "filosófica" leva-me sempre sempre sempre a uma questão de índole mais prática, que é "eu não sei o que quero da vida")... de como tudo é completamente absurdo... parar para pensar de onde tudo veio e para onde tudo vai e, afinal, o que raio estamos aqui a fazer... dêem os argumentos que derem "estamos aqui para procriar", "estamos aqui porque deus nos criou" (e a questão da religião é outra que dá pano para mangas, mas para resumir a coisa, para mim é simplesmente uma forma que as pessoas encontraram para depositarem tudo o que de bom e mau acontece e até mesmo todas estas perguntas, num ser divino e superior, que "dita" o que está certo ao errado, no qual depositamos fé e esperança numa vida após a morte, enfim... uma fachada total), vai tudo dar ao mesmo... a um gigante e redondo PORQUÊ. o porquê de tudo existir, o porquê de tudo ter começado, se alguma vez começou (ninguém sabe, quando chegámos cá já tudo existia simplesmente), o porquê de tudo simplesmente ser, se tudo um dia vai simplesmente acabar... o tempo, atrofia-me... o tempo é uma questão que me confunde... a questão do ser humano ter sentido a necessidade de ter criado algo que cronometrasse o tempo, aliás, por ter criado a própria noção de tempo, por sentir necessidade de se orientar... orientar... regras, normas sociais, leis... sem elas, o que seríamos? verdadeiramente livres... verdadeiramente livres? nunca seríamos felizes assim... na verdade, a liberdade é uma completa falácia... viveríamos no completo caos e desordem... no fundo, temos tanta necessidade (pelo menos eu) de quebrar regras e de revoltar-se contra padrões e critérios universais do que é aceite ou reprovável, contra juízos de valor nos quais acabamos por cair nós mesmos inevitavelmente... mas a verdade é que sem tudo isso viveríamos num completo abismo, um buraco negro para o qual seríamos sugados, um caminho sem fim e sem retorno, o ciclo vicioso do sem-sentido... depois de pensar nisto, chego à conclusão de que não vale a pena... que pensar nestas coisas só por um dia me cansa tanto psicologicamente, ao ponto de me deixar exausta, quanto mais pensar uma semana, um mês, um ano, uma vida inteira!... e nunca chegar a uma solução... diz-se que o ser humano é racional e por isso terá mais vantagem sobre os outros animais, no entanto, não vejo a coisa dessa forma... quanto mais consciência e racionalidade temos, mais dúvidas colocamos, menos respostas obtemos, mais infelizes nos sentimos... há alturas em que penso mesmo, mais valia viver na ignorância e ser feliz... não aguentamos de tanto conhecimento, de querermos sempre conhecer mais porque achamos que nunca conhecemos o suficiente... e procuramos, mais e mais, mais e mais, e quanto mais procuramos, menos encontramos, a menos conclusões chegamos e mais dúvidas surgem... então chegamos à conclusão de que o melhor será mesmo aceitar o absurdo completo da simples existência e viver com isso... entregarmo-nos às trivialidades do dia-a-dia, ao trabalho, à faculdade, aos amigos, ao namorado/a, à série de televisão, ao facebook, aos blogs, à satisfação das nossas necessidades mais básicas, ao sexo e aos prazeres carnais e efémeros, ou às coisas que achamos belas e geniais na vida, como aquela música que nos toca em todos os aspectos e que somos capazes de ficar um fim-de-semana inteiro a ouvir, ou ir a um museu contemplar as mais belas obras de arte alguma vez feitas, ou viajar pelo menos uma vez por mês e conhecer pessoas e culturas diferentes da nossa... fazendo um esforço para nos esquecermos de que há e sempre vai haver aquela dúvida existencial, a maior dúvida de sempre, mas que, como nunca lhe vamos conseguir dar uma resposta, mais vale então habituarmo-nos... como quem diz deal with it, chegaste aqui, nasceste, vives, não te mates porque concerteza tens alguém que te ama no mundo e como ser altruísta que deves ser não deves ser egoísta ao ponto de tirares a tua própria vida e deixares alguém a sofrer por cá...  mas que tudo isso que vives não tem importância absolutamente nenhuma... sejas tu, anónimo, ou o Barak Obama, vai tudo dar ao mesmo... somos iguais por dentro, temos o sangue da mesma cor e, como seres humanos irremediavelmente condenados à trivialidade e efemeridade, não somos absolutamente nada senão a repetição de alguém... por isso, das duas uma, mata-te ou conforma-te, simplesmente, não há nenhuma outra saída...

não sei que se passa comigo... ando a ler Nietzche, ando extremamente existencialista e niilista... neste momento vivo no absoluto caos que é a minha mente.

e tudo isto começou pela coisa mais absurda de sempre... uma cadeira, na faculdade, que odeio, e que quando me sentei para estudar e quis bater com a cabeça nas paredes... quando recebi as notas e vi que tinha tido dois míseros 14's (eu sou exigente comigo própria e 14 é médio a mandar para o mau) depois de me ter esfalfado em 2 trabalhos... dei por mim a pensar... PORRA, esta merda não me faz feliz, provavelmente só me faz ganhar rugas e eu devo morrer jovem, porque é que eu estou a perder tempo com isto... isto não interessa para nada, no fundo, no background do que é a minha vida inteira, isto não interessa absolutamente nada... but then again, que remédio tenho eu senão fazer algo da vida nem que seja com o último propósito de sobreviver e ir sobrevivendo para acabar por morrer... que remédio tenho eu, com a crise que está e com toda a gente (sobretudo os meus pais) a mandarem-me esse facto à cara, senão trabalhar para um pequeno vislumbre de um futuro que se diz ser melhor... mas que na verdade vai ser uma merda, porque nunca tive um time off para pensar o que realmente queria da vida, e nem me podia dar a esse luxo... por vezes sinto que fui forçada a crescer demasiado rápido, ainda que tivesse sempre mantido o meu mundinho cor-de-rosa para salvaguardar a minha sanidade mental.

toda e qualquer motivação foi-se, vai-se, um pouco mais todos os dias, faço as coisas por obrigação, a pensar que sim senhora, adoro psicologia, mas que provavelmente não me vai levar a lado nenhum... vai levar-me onde? a tirar um curso, arranjar um emprego, dentro de um consultório ou de um escritório, onde vou estar todos os dias das 9h às 17h, para conseguir pagar as contas ao fim do mês, escrever uns quantos livros se tiver sorte e inspiração, constituir família, cuidar dos filhos, envelhecer, reformar-me, cuidar dos netos, e eventualmente (aliás, de certeza), morrer... é isso mesmo... "Há quem diga que a vida é como uma longa caminhada. Que grandes caminhos se percorrem começando por dar um pequeno passo. Que partimos de um princípio, e chegamos à felicidade, simbolizada pelo fim desse grande caminho. Eu acho que a vida é uma caminhada que vai sempre dar ao mesmo. Não é em frente, como na proposta que referi acima, mas sim para os lados. Podemos dar um, dois, três passos, ou os que forem, para a esquerda ou para a direita. Mas voltamos sempre ao mesmo. Voltamos sempre àquele ponto inicial, que coincide com o final. Onde o nascimento se cruza com a morte... no fundo, acabamos sempre onde começámos. Dermos os passos nas direcções que dermos. Acabamos sempre onde começámos e tudo o que fica pelo meio, é só isso... tudo o que fica pelo meio. Nada mais, nada menos." (daqui, por mim).

Sempre filosofei muito. Demais até. Até doer. Doer mesmo, doer na alma. Não sei se tive algum trauma de infância em relação à morte, se tive não me lembro, mas nunca consegui lidar bem com a mortalidade das pessoas e a finalidade das coisas em geral. Há momentos em que me sinto como uma criança que se confronta com a morte pela primeira vez. Ainda não tendo aceitado bem a questão da mortalidade, chegar à conclusão de que a morte/o fim é absolutamente inevitável a tudo o que vive, é dose demais para mim. "Filosofar é aprender a morrer". José Saramago.

4 de Janeiro de 2011 à noite... o meu avô paterno morreu. só soube agora. não o conhecia, still meu mundo inteiro ruiu. ainda mais. se estive quase o dia inteiro de hoje a chorar, foi por pressentimento, por presságio, de certeza, uma espécie de sexto sentido, e eu nem sou de acreditar nessas coisas, mas raras são as vezes em que acordo e me apetece simplesmente chorar, compulsivamente, chorar e chorar apenas. estou mais triste pelo meu pai. as forças esgotaram-se. estou tão angustiada que nem consigo chorar. não tenho mais lágrimas. Descansa em paz, Avô.

' One step at a time...

Há quem diga que a vida é como uma longa caminhada. Que grandes caminhos se percorrem começando por dar um pequeno passo. Que partimos de um princípio, e chegamos à felicidade, simbolizada pelo fim desse grande caminho.

Eu acho que a vida é uma caminhada que vai sempre dar ao mesmo. Não é em frente, como na proposta que referi acima, mas sim para os lados. Podemos dar um, dois, três passos, ou os que forem, para a esquerda ou para a direita. Mas voltamos sempre ao mesmo. Voltamos sempre àquele ponto inicial, que coincide com o final. Onde o nascimento se cruza com a morte... no fundo, acabamos sempre onde começámos. Dermos os passos nas direcções que dermos. Acabamos sempre onde começámos e tudo o que fica pelo meio, é só isso... tudo o que fica pelo meio. Nada mais, nada menos.

31 de dez de 2010

A minha mente tem andado por caminhos perigosos... Como se fossem águas fundas e geladas. É preciso ter algum equilíbrio mental para não deixar que as questões essenciais da própria existência nos façam cair numa depressão. Uma vez que se entra, já não se pode, já não se consegue, sair. E eu já entrei. Entrei pela primeira vez aos 15 anos. E há (quase) 6 anos que continuo (insistente e estupidamente) a colocar questões a mim própria às quais sei que nunca vou conseguir responder.

29 de dez de 2010


O ponto em que a felicidade extrema e a angústia se tocam.

14 de dez de 2010

[Untitled]


Caio, mas o céu fica cada vez mais perto.
Sinto-me esperto, mas a minha mente me consome
Já não sinto o corpo
É tortura ser torturado pela tortuosa tortura da mente
É redundante…
Não obstante,
Nenhuma tortura sinto
Mas ela existe, como finjo que ela existe!
Virtuosa realidade que persiste
Dolorosa verdade constante,
Ou a mentira deliciosamente
Absurda
Em que vivo e sobrevivo
Tropeço nela quando acordo, convivo com ela quando sonho
Sempre algo produto de representações,
Decisões e emoções
Num ambiente ilusório, risonho,
Medonho, assustador,
Entro em pânico,
Caio em mim, caio na realidade,
A ilusão desvanece-se.
No entanto, apercebo-me do quão dubitável,
Do quão incómodo é, a existência da própria realidade
Que me assusta, talvez… mas a consciência mata-me de novo
Outra vez…
Assim, caio, final e fatalmente
Caio na inevitabilidade que sempre evitei.
Caio, mas o céu fica cada vez mais perto.

Cláudia Silva & Daniel Freire

26 de out de 2010


A maioria das pessoas diz-nos o que fazer com a nossa vida, sem pensarem em mais nada, a não ser o que elas acham. Mas às vezes podemos sentir-nos desprotegidos e não conseguimos deixar de absorver o que têm a dizer, e depois pensamos... "porquê basear a minha vida na opinião desta pessoa?", e nessa altura se calhar já é tarde demais...

12 de jul de 2010


uma pequena compilação de alguns dos meus poemas.

7 de jul de 2010

Sempre fui pouco confrontadora. Achava que era um defeito, que me deixava pisar, rebaixar, deixar os outros levar a melhor. Com o tempo, aprendi que ser pouco confrontadora permitia-me uma maior paz interior. Ao que não dou importância, não confronto, ao que me é indiferente, não confronto. As atitudes alheias que nunca confrontei, deixaram de me incomodar. Deixei de ter a necessidade de confrontar os outros por achar que era o que devia fazer, mas não conseguir e viver  numa insatisfação interior permanente. Deixei de ter necessidade de me confrontar comigo mesma por não conseguir confrontar os outros. O que me incomodava, deixou de incomodar, e encontrei uma paz maior. Afinal, as más atitudes ficam em quem as tem, não em quem as recebe ou para quem elas são dirigidas.

5 de jul de 2010

Com o tempo, aprendi a saber estar sozinha. Na cama, a olhar para o tecto, a ouvir os meus pensamentos. Numa rua, na penumbra, só, a ouvir os meus passos, a ver a minha sombra. Sem qualquer medo. Se dantes tinha medo de parar, e ficar sentada numa cadeira entre 4 paredes caladas, se dantes tinha medo de me ouvir, porque o que dizia a mim mesma era tanto que não conseguia assimilar tudo, hoje, isso mudou. Consigo ouvir-me sem ter medo de me perder. Deixei de ter medo do silêncio e aprendi que o silêncio interior é a maior fonte de sabedoria a que temos acesso. Aprendi a ouvir-me quer esteja sozinha no silêncio, a ler um livro, a ouvir música, a ver televisão, a falar com uma pessoa, com duas pessoas, com três pessoas ou no meio de uma multidão. Já não preciso de ninguém para me sentir suficientemente segura ou para não me sentir sozinha. Porque, agora, estou em contacto. Comigo mesma.

20 de jun de 2010

'

Há sempre aquele momento em que queres, desesperadamente, alguém. Alguém que não queres conhecer, alguém que não queres que te conheça, alguém a quem só digas “Olá” no dia-a-dia, alguém que nem saiba que tu existas. Essa pessoa é sempre inatingível. Vais sonhar, vais fantasiar, vais sempre achar que sim, ou que não, ou que talvez. Um dia, cais em ti. Percebes que não há nada a fazer. Que não podes mexer numa ferida que está prestes a abrir. Porque é complicado, em demasiados aspectos.

30 de abr de 2010

Fosse eu noite, fosse eu dia
Fosse eu morte, fosse eu vida.
Fosse eu fogo, fosse eu vento.
Fosse eu tudo, fosse eu nada.
Atravessa minha ânsia,
Paisagem, retrato dos traços do teu rosto.
Morre em mim e amanhã
Amanhece-me de novo.
Porque o teu sorriso é como aquele antigo
Sol de inverno.
E o cheiro dos teus pulsos lembra-me
O romper de uma primavera
Jovem e promissora.
Sim, afoga-te em mim, esta noite,
Renasce no meu oceano, longe mas perto,
Desembarca na ilha do sempre e do para sempre, despe-me
Ensina-me e dá-me vontade de beber da vida.
Porque nua estou aqui, nesta praia, sem nada mais em que
Querer crer
Sem ser no ruído ensurdecedor do mar
E no silêncio do céu,
E na paz da brisa fresca.
Estou aqui, paixão,
Espero por ti todos os dias olhando sempre o mesmo azul
Espero que me venhas dar a beber da vida
Espero que venhas, me olhes e habites a solidão da minha alma
Sim, todos os dias te aguardo.
A tua vinda,
A paz que me tiras,
O fogo que me trazes.
Vem e toma-me como tua,
Como tua sempre fui,
E morre em mim.
Por fim, ensina-me a dizer-te adeus,
Ensina-me a deixar-te partir.
Ensina-me a morrer, meu amor,
Ensina-me a saber morrer, meu amor,
Ensina-me a saber morrer em ti.

CS
30-04-2010

ao som de:


28 de abr de 2010

' Déjeuner du Matin.

Il a mis le café


Dans la tasse


Il a mis le lait


Dans la tasse de café


Il a mis le sucre


Dans le café au lait


Avec le petite cuillère


Il a tourné


Il a bu le café au lait


Et il a reposé la tasse










Sans me parler


Il a allumé


Une cigarette


Il a fait des ronds


Avec la fumée


Il a mis les cendres


Dans le cendrier


Sans me parler


Sans me regarder


Il s'est levé










Il a mis


Son chapeau sur sa tete


Il a mis


Son manteau de pluie


Parce qu'il pleuvait


Et il est parti


Sous la pluie


Sans une parole


Sans me regarder


Et moi, j'ai pris


Ma tete dans ma main


Et j'ai pleuré


Jacques Prevert

24 de abr de 2010

' Hoje sopro 20 velinhas - a minha reflexão em relação ao assunto.



Venho despedir-me dos 19 anos para receber os 20 com alguma (muita) reticência...

Hoje completo duas décadas e há quem diga que entre os 19 e os 20 pouca diferença há. Pois, provavelmente também me vou sentir igual hoje ao que sentia ontem. Mas sei que a partir de agora, vai ser diferente. Eu já me sinto diferente.
Este meu 20º aniversário não é só mais um aniversário. É o aniversário que eu ando a temer há meses. Acho que estou com uma pseudo-crise-de-idade. Se estou assim agora, nem quero imaginar quando me começarem a aparecer rugas e cabelos brancos. Lol.

20 anos. 20 anos marcam 20 desde que vi o mundo pela primeira vez. 19 desde que – talvez – dei os primeiros passos, disse as primeiras palavras. 15 anos desde que me virei para os meus amiguinhos no infantário e disse “já tenho uma mão!!”, quando fiz 5 anos. Ironia, agora tenho “4 mãos”. 14 desde que me caiu o primeiro dente de leite. 10 desde que sou menstruada (sim, o meu primeiro período veio demasiado precocemente, aos 10 anos, pouco faltava para os 11). 5 anos desde que tive aquele pico de adolescência estúpida e parva (que ficou registada), com direito a ataques de fúria por causa de uma borbulha. (aproximadamente) 3 anos desde que perdi a virgindade. 3 anos desde aquela fase em que achava que era muito rebelde e andava na onda de fumar ganzas com o meu namorado da altura. E 2 anos desde que a minha personalidade estabilizou (por volta dos 18/início dos 19).

Aproveitei este meu ano de 20º aniversário para fazer uma retrospectiva à minha vida. Li todos os diários que escrevi quando era adolescente. Completei um total de 18 diários dos 14 aos 16 anos. A cada página ri e a cada página deu-me vontade de chorar. Marquei páginas, sublinhei frases e a cada página pensava “quem me viu e quem me vê”. Tudo o que eu fui, tudo o que eu era, tudo o que eu queria ser, é totalmente diferente de tudo o que eu sou agora.

Pois que eu mudei, as coisas mudaram, o mundo mudou. Há assim não tanto tempo atrás (4 anos?), eu não era absolutamente nada do que sou hoje. Odiava-me a mim mesma, a mim e às minhas borbulhas. Hoje, adoro-me. E eu era super dramática, fazia uma tempestade num copo de água por tudo e por nada e à mais pequenina desilusão. Hoje, sou muito mais descontraída. E eu era tão ingénua e sonhadora, construía discursos para quando ganhasse um Emmy (citação de um dos meus diários “Thank You World!!” -.-). Hoje, tenho os pés muito mais na terra, apesar de continuar com a minha mania de fazer listinhas com objectivos para a vida (nenhum deles inclui ganhar um Emmy). Continuo a ter a capacidade de sonhar e de viver apaixonada por tudo e pela vida, todos os dias, mas as desilusões quase que me passam ao lado, porque fiquei imune. Era muito tímida, muito reservada. Hoje, sou muito mais outgoing. Era super super super imatura, nem perto de pessoas com 15 anos que vejo hoje (muito mais maduras do que eu era na altura). Achava-me super infeliz, odiava a minha vida, e os meus maiores problemas e dramas eram o “SA”, as notas de matemática, as minhas “pitax malucax” e os problemas que tinha com elas na escola e quando nos zangávamos; hoje, adoro tudo na minha vida, acho-me super feliz, raramente estou triste, em baixo, ou deprimida e não dou importância ao que realmente não é importante; e escusado será dizer que já me passou a panca de escrever com “x’s”. Não me conhecia bem, um dia achava-me uma coisa, no outro dia outra… achava que tinha múltipla personalidade (!!!!). Hoje, conheço-me tão bem em tantos aspectos, e concerteza não tenho múltipla personalidade. Era tão ingénua e sensível, acreditava em coisas como no altruísmo!! (entrada no diário no dia 21-01-2006: “(…) há que ser solidário, amigo e altruísta!!”). Hoje, sou muito mais insensível em tudo o que tem a ver com solidariedades, lol. Via os Morangos com Açúcar, hoje acho a série mais nojenta de sempre, uma imitação rasca da New Wave (que também via). Acho que, se a saga “Crepúsculo” tivesse saído nessa altura, eu ia amar, porque era a minha cara. Hoje, não suporto esse tipo de sagas e histórias. Eu mudei tanto, tanto, que naquela altura até frequentava um ginásio (dessa nem me lembrava, deve ter sido um recalcamento, porque sempre detestei desporto, coisa que, aliás, refiro nos diários).

Mas quem diz mudanças que sofri durante a adolescência, diz coisas que mudaram desde já há muito mais tempo atrás. Onde dantes era a Feira Popular, onde eu ia todos os fins-de-semana que passava com o meu pai, agora é um descampado vazio e triste. O Jardim Zoológico, sinónimo de divertimento quando eu tinha 9 anos, agora é só uma estação de metro. Santos, onde durante anos andei nos Escoteiros, e para onde ia sair à noite com os meus amiguinhos adolescentes, durante outro par de anos mais tarde, agora é só mais uma rua.

VINTE, só por si, já é uma palavra que me faz espécie. Se quiser viver até aos 80, ¼ da minha vida já passou.

Mas o que me chateia mesmo, é que eu não me sinto com 20 anos em nenhum aspecto. Estou onde queria estar com esta idade, não estou “atrasada” em nada (na faculdade, carta tirada, etc etc), mas a ideia que tenho de mim não é nem nunca foi a ideia que sempre tive de uma pessoa “com 20 anos”. Há muitos aspectos nos quais sinto que “estanquei” lá pelos 17/18 anos. Apesar de ter sido forçada a crescer em muitos momentos da vida, posso dizer que tive uma infância e uma adolescência completas, passei por todas as fases, boas e más, e agora entro, finalmente, na vida ADULTA. E é isso que eu não quero. EU NÃO QUERO SER ADULTA. Eu queria ser adolescente para sempre. Não a adolescência estúpida (dos 15 anos), mas a fase em que a adolescência começa a ser boa (18 anos). 

Sei que neste momento, muitas coisas são como eu um dia desejei ter sido, quando não as tinha. Passei anos e anos a pensar “quando eu for mais velha”. Quando eu fosse mais velha, podia tirar a carta. Quando eu fosse mais velha, podia ir para a faculdade e ia ser tudo diferente (e livrar-me da escola secundária, que odiava), quando eu fosse mais velha podia entrar naquelas discotecas que ainda não eram para a minha idade (vulgo, que o meu pai não me deixava ir), quando fosse mais velha podia dar sangue, quando fosse mais velha podia fazer sexo à vontade (pensamento que tive aos 15 anos, quando queria perder a virgindade mas achava que era muito nova), quando fosse mais velha já tinha personalidade jurídica (muitas vezes pensei emancipar-me, quando me chateava com os meus pais, depois, preguiçosa como sou, achava muito complicado e ficava só a sonhar com os 18 anos), quando fosse mais velha podia fumar, beber, o problema era meu, quando fosse mais velha podia fazer o que quisesse sem pedir autorização aos meus pais, quando fosse mais velha iam respeitar-me mais, iam ouvir-me mais e ter-me mais em conta, como tantas vezes não tinham, como tantas vezes me ignoravam só por eu ser uma “pita”. sim, disse tantas vezes para mim mesma: Quando eu for mais velha...

Pensei nestas coisas inúmeras vezes quando tinha 14, 15, 16 e até 17 anos… os 18 e os 19, foram absolutamente os melhores anos, já “podia” fazer tudo o que estava acima descrito, mas ainda não era “velha” o suficiente para responsabilizar-me pelos meus erros. Quer dizer, na verdade, era. Mas achava que não, que tinha o desconto por ainda ser uma miúda. E tinha!

E, no fundo, é isso que eu me sinto, ainda e por muito tempo: uma miúda. Sinto que cresci muito até aos 18 e aí fiquei. Parei por ai. Achei que era a minha vida e personalidade ideais e em pouco mais evoluí. Estabilizei.

A partir de agora, sei que tenho de medir muito melhor as minhas acções. Sei que as responsabilidades aumentaram. Sei que já não vou ouvir tanto “deixa lá, quando tinha a tua idade também fazia isso, é normal”. Já não tenho o pretexto da “idade da parvoíce” para fazer parvoíces. Se fosse mãe agora, já nem seria mãe adolescente. Agora, já não tenho mais desculpa para muitas coisas. Já não tenho desculpa para, por exemplo, ainda não saber o que quero fazer na vida. E a verdade é que não sei. Estou a tirar um curso só porque sim, só porque gosto, sem quaisquer perspectivas do que quero fazer realmente no futuro.

Todos os anos (desde os 14, acho eu), festejei o meu aniversário, porque sempre amei fazer anos. O meu signo ascendente em Leão e o meu lado egocêntrico adorava ser o centro das atenções nem que fosse durante um dia por ano. Este ano, estou muito mais low-profile. Não estou nem um pouquinho feliz por fazer 20 anos, porque não os queria fazer. Nem sequer fiz contagem decrescente para o meu dia de anos, como fiz todos os anos passados (que criancice, eu sei, eu sei!). Por isso ao início nem sequer queria festejar, mas depois pensei melhor e resolvi fazer uma festa pequena, íntima, informal, apenas com os amigos mais próximos, e aproveitar para fazer a festa de inauguração aqui de casa (que estava à espera para fazê-la desde o ano passado..lol). Para mim, a festa é mais de inauguração do que de anos. Não quero mesmo festejar o facto de fazer 20 anos porque, para mim, não é felicidade nenhuma.


Enfim, basicamente é isto. Quis tanto, tanto, tanto crescer, que esse meu desejo chegou cedo demais. Tenho 20 anos, há umas boas décadas atrás provavelmente já estaria a trabalhar e casada e grávida. Já estou na idade pra ganhar juízo e ainda me sinto… uma miúda.

UMA MIÚDA, É O QUE SOU. E SEREI POR UNS BONS TEMPOS.
Acho que a palavra “mulher” nem se aplica a mim.

de qualquer maneira, Parabéns a Mim.

Muaah @

21 de mar de 2010

Porque hoje é o Dia Mundial da Poesia

não podia deixar de vir cá deixar uma palavrinha. infelizmente, há meses e meses e meses que não escrevo um poema, uma frase mais profunda, nada de nada. sinto a minha alma como se fosse um deserto em tempo de seca. o que me deixa, verdadeiramente, triste. o que soa a ironia: só consigo escrever poemas quando estou verdadeiramente triste, e se não tenho conseguido, é porque, felizmente, a felicidade tem sido constante na minha vida. mas este dia não pode passar em branco neste blog meio abandonado. a poesia é-me demasiado importante. e, como tal, deixo aqui um dos meus poemas favoritos, do meu autor favorito :)

TABACARIA
    Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
    Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
    Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. A aprendizagem que me deram, Desci dela pela janela das traseiras da casa. Fui até ao campo com grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e árvores, E quando havia gente era igual à outra. Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Gênio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, E a história não marcará, quem sabe?, nem um, Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. Não, não creio em mim. Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? Não, nem em mim... Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando? Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, E quem sabe se realizáveis, Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, Ainda que não more nela; Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades; Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, E ouviu a voz de Deus num poço tapado. Crer em mim? Não, nem em nada. Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo, E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. Escravos cardíacos das estrelas, Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordamos e ele é opaco, Levantamo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira, Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
    (Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível. Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, Nobre ao menos no gesto largo com que atiro A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas, E fico em casa sem camisa.
    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas, Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê - Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! Meu coração é um balde despejado. Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco A mim mesmo e não encontro nada. Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, Vejo os cães que também existem, E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
    Vivi, estudei, amei e até cri, E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
    Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
    Essência musical dos meus versos inúteis, Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse, E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, Calcando aos pés a consciência de estar existindo, Como um tapete em que um bêbado tropeça Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada E com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
    Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra, Sempre o impossível tão estúpido como o real, Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?) E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. Semiergo-me enérgico, convencido, humano, E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria, E gozo, num momento sensitivo e competente, A libertação de todas as especulações E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
    Depois deito-me para trás na cadeira E continuo fumando. Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.) Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
    Álvaro de Campos, 15-1-1928

24 de fev de 2010

sinto-me cruelmente bom em não ser mau
amo onde a estrada começa
paupérrimo, percorro a vida à espera de esmola.
os transeuntes passam como se de um simples obstáculo me tratasse.
sou ninguém, desespero por não o fazer, morro por viver: o que estupidamente tem lógica, mas nem sempre começo por perceber...
a ausência de ter vontade para ir, avançar, apenas por não querer ficar.
preguiço, o sangue evapora-se sozinho apenas porque quer fugir. desaparecer.
assim se cria uma neblina bem encarnada, de forma crua, ao som silencioso do crepúsculo.
os cães ladram e a caravana passa, como uma corrupção mental e metafórica como se não houvesse instinto banal
só porque sim.
é então que fria e seca a brisa da ausência de instinto torna o ar mais rarefeito e duro de respirar.
como um cavalo de tróia por executar a função suja e porca de uma rasteira cruel,
porque pode fazê-lo.
e morre, assim, na praia, traiçoeiro e solitário, o cavalo de tróia que habitava minh'alma vazia e impassível de vir vez alguma a ser preenchida.

Cláudia Silva
Daniel Freire
22-02-2010
Aula de Percepção, Atenção e Memória.

18 de fev de 2010

' Poema X

Há sempre qualquer coisa neste ar que respiras,
Um sabor envolvente de uma textura suave,
A seda, talvez.
Um som delicioso, um odor carinhoso,
Uma luz ensurdecedora.
Há sempre um desejo e uma vontade desenfreada
De te dizer, de te contar
As flores que vi pelo caminho.
A forma como o sol me iluminou,
A forma como o vento me fez esvoaçar os cabelos...
Ontem. Hoje. Amanhã.
Há sempre esta vontade imensa de te abraçar,
Este desejo imenso que me beijes, meu amor,
Esta vontade infinita.
Quero-te agora, hoje e para sempre,
Como te quis ontem e nem o sabia.
Quero-te mais que a vida,
E quero que a vida tenha o teu sabor a sal,
A liberdade dos teus braços,
A doçura dos teus olhos.
Quero que a vida saiba pela vida...
Como tu, meu amor, como tu.

CS

11 de nov de 2009

' 3 Anos


e esta janela continuará sempre aberta.

*3 ANOS BLOG JANELA ABERTA*

8 de nov de 2009

' Alienação.

O silêncio é demasiado ruidoso
Demasiado insuportável.
Recorda-me que minha alma
Só é presente.
E que passado e futuro
São paisagens ngeras
Delírios inconscientes,
Fingimentos latentes.
Este fogo que arde agora
Faz-me frio.
E finjo que ardo no meu alheamento,
Na minha imensa luz,
No meu papel.
Estou alienada.
E o porto que anseio
Tem tanto de distante como de ilusório,
Como de seguro.
O lar quente que tanto procuro tem pouco de acolhedor.
Pouco tem de Humano.

Pouco tem de real.

CS.

28 de ago de 2009

' Uma Janela Aberta - Não tive tempo.

Não tive tempo, meu amor, não tive tempo!
Para deixar de ter pressa que passasse o tempo;
Para deixar que viesse o tempo de ter tempo,
De esperar e desesperar para ter tempo,
Para viver o momento
Para chorar por dentro,
Não tive tempo, meu amor, não tive tempo...

Não tive tempo, meu amor, não tive tempo!
De reparar que as palavras vieram e foram
Que morreram e renasceram;
Para deixar que fossem apenas gotas de água por cima de mar,
Ar e vento
E pétalas por cima de rosas,
Não tive tempo, meu amor, não tive tempo...

Não tive tempo, meu amor, não tive tempo
Para pensar bem e saber que tive todo o tempo
Do mundo.
Que deixei cair uma lágrima cá fora quando milhares já tinham caído
Lá dentro.
Que tive medo de ser feliz, e fugi, e fugi, e corri até não poder mais.
Que fugi até sentir dor, até sentir paz. Até sentir que o merecia.
Que fugi do tempo que tinha para ter tempo.
E não tive tempo sequer de ser livre na minha entrega.

Mas hoje tenho tempo. Tenho tempo,
De sobra até.
Tenho tempo para te esperar. Tempo para te abraçar,
Para me despir, para te sentir, para inexistir
Existindo.
Hoje tenho tempo e hoje sou amor. Hoje sou liberdade,
Sou toda a cor que destoa do azul do mar,
Tudo o que é diferente mas vai dar ao mesmo.
Sou todo o tempo, todo o tempo.
Sou a luz, sou a sombra, sou a santa e sou a pecadora.
Hoje sou música, hoje sou uma canção.

Danças comigo?

CS

' Uma Janela Aberta - Qualquer.

Sou uma qualquer,
Não diferente de todas as outras
Quaisquer,
Nem diferente de qualquer
Nenhuma.

Sou uma qualquer,
Tão igual por ser diferente

Mas não diferente por ser igual
A qualquer igual ser,
Enfim,

Qualquer alguma.

Sou uma qualquer,
Espero por qualquer sorriso,
Qualquer beijo e qualquer sonho
Em que sonhe que não sou, afinal,
Qualquer uma.



CS

' Uma Janela Aberta - Poema V.

O eco do fundo dos teus olhos
Refunde-me para as sombras do jardim
Que é o teu corpo.

E absorta fujo, escondo-me,
Porque te tenho, porque me tens,
Porque sou eternamente tua.

Mas algures no meio do fulgor
Do teu abraço
Surge um navio prestes a naufragar.
No jardim do teu corpo,
Navega em mar verde,
O navio prestes a naufragar.

Algures no meio de todo este fogo
Que arde num delírio delirante
Surge a minha âncora,
De ferro forte, feio, esquecido
De onde encontra meu porto seguro.

Oh, se o abandono soubesse
Onde encontrar essa estrada
Que me leva...

Se essa voz soubesse
Onde cantar minha tristeza...

Então saberia onde se encontra o princípio do fim
Encontra-se em ti e em mim,
E no barco que te naufraga,
Nas sombras que nos refundem,
No vento frio que se faz sentir
Nesse teu jardim, ao fim da tarde,
Na poeira de um entardecer já antigo...

Sim, o eco do fundo dos teus olhos
Refunde-me para as sombras do jardim
Que é o teu corpo.
E, sós, amamo-nos, como se jamais
Amanhã houvesse.

CS

' Uma Janela Aberta - Poema VI.

Nos recônditos da minha sensata lucidez
Encontro picos excêntricos, excentricamente
Loucos.
Nesta realidade que me prende, que me puxa,
Que me veste, que me insiste,
Revisto-me de liberdade, de abundancia
De luz.
Na amplitude da consciencia,
Na totalidade do ser que compreende,
Dobro esquinas de brilho,
Percorro estradas de extravagância,
Mergulho em mares de vento solto
Até doer.
Nesta alma matematicamente morta,
Estupidamente viva,
Até doer choro, até doer encontro o choro
Que me faz, apenas, ser.

CS

Em cada esquina
Dobra um sino lembrando-me
Que me perdi
E que já me encontrei de novo.
Que morri e que nasci de novo,
Afinal a vida está presente até na morte.
Mas nesta existencia absurda
E absorta. E infinitamente
Finita, humana, complexa, simples.
Anónima e Renascida,
Será sempre apenas e nada mais que
uma vela, num meio de um mar de velas.
Um pequeno ser abandonado por ter que ser apenas
Somente aquilo que nasceu pra ser.. Nada.

Porque serão sempre cópias de alguéns
Em sítios repetidos
Iguais a tantos outros algures
Nas ruas sujas e imundas
Da banal existencia.
E caminham passivas e impávidas,
Massas de
Personalidades
Nomes, ilusões,
Paixões,
E rostos cansados.
Cansa-os ser. Absurdamente
Existir.
Ter maneiras absurdamente diferentes
De igual ser, de igual sentir.

E continuo porém a ser sempre mais uma alma
Presa num corpo despido.
Parte de mim quer fugir, partir
Apenas por não querer ficar.
Parte de mim quer naufragar.

E dói-me tanto naufragar-me.

CS, 14-03-2009

' Uma Janela Aberta - Sou Aquela.

Sou aquela cujo espelho
É fielmente fiel.
Aquela que pinta
Com um doce pincel
Este tão frenético processo
De multiplicação.
Sou aquela cuja alma
Se espraia no mar.
Aquela cuja alma
Implora por brilhar,
Mas sem fulgor nem paixão.
Ah, sou aquela e aquela e
Aquela ali,
Aquele abrir de rosa à espera
De um contemplar
E mais
Aquela, aquela,
Aquele anseio de alma
Cheio de mudos ais...
Esta. Cuja imagem se esqueceu
De retratar.

CS

' Uma Janela Aberta - Tela.

Comprei esta tela branca ao preço do silêncio...
Quero pintá-la. De transparente, talvez.
Choveram vitrais perfumados
E ideias coloridas.
Mas sujaram-me a tela de um Humano horrendo !
Abandonei-me, então, de sonhos,
Por serem tão Humanos. Queimei-me em velas
Até me perder numa bruma.
Mas... shh ! ainda oiço !
As auréolas dos anjos a cintilar !
Ainda escuto ! as canções tristes que me alegravam.
Os girassóis, o sol, o céu, as estrelas, a lua.
Ainda me vejo. Em douradas pradarias.
Ah ! e as casas de madeira...
(ainda sinto a brisa, e por saber senti-la sinto ainda que nunca
Haveria de o ter feito).

Hoje, escondi-me. Abandonada e absorta
De toda a luz com que fui abençoada, outrora.
Sou como uma flor que murcha sem sol,
Por não haver vida.
Quis tão pouco. E era tanto para este Mundo:
Tão pequeno !
Despi-me e, nua, pintei-me de Humana nesta tela.
Alheei-me. Pintei o alheamento
No silêncio. Nas palavras não ditas
Desenhei jardins, e flores, e sorrisos,
Com lágrimas escondidas.
Ao fundo, uma catedral. Olha os vitrais ! antes perfumados, agora
Obscuros. Secretos.

Pintei a tela de Humano.
Ela canta, hoje, o silêncio.
Esconde um pranto cego.
O som dos sinos sai calado.
E eu, Deliro !

CS

' Escrita por Associação Livre 3

Não quero tentar
Não quero conseguir
Não quero explicar
Não quero deduzir
Não quero entender
Não quero perceber
Não quero analisar
Não quero interiorizar
Não quero saber porquê, mas sei, mas tento, mas quero, mas explico,
Mas deduzo, mas entendo, mas percebo, mas analiso, mas tento tentar,
Tento querer, tento conseguir, tento explicar, tento deduzir, tento entender,
Tento perceber, tento analisar, tento interiorizar, tento saber
E afinal não sei tentar nem sei conseguir nem sei explicar nem sei deduzir
Nem sei entender nem sei perceber nem sei analisar nem interiorizar
Nem saber porquê
Porque é tudo inconcebível, é tudo inexplicável, é tudo indutível, é tudo imperceptível
Porque é tudo non-sense é tudo um absurdo é tudo um não vale a pena.
Porque é tudo um fingimento.

CS, 29.08.2008

' Uma Janela Aberta - Silêncio (prosa poética IV)

O inesquecível irrespirável. O nó que dá na barriga O suspiro e o desejo de um dia de um dia poder vir a ser tua. É isso mesmo, quando passas. É isso mesmo, quando te vejo- Quando os nossos olhares se cruzam. No desejo patente de nos termos de nos amarmos. No desejo de sermos um do outro, de nadarmos infinitamente no mar das promessas perdidas, das juras esquecidas, das palavras ditas e reditas e apagadas, que apenas permanecem na memória dos sons, dos instantes, das imagens, de ti, de mim, de nós, do tudo e do nada, do nunca e do para sempre, do sonho, da fantasia, de acordar no meio da estrada que nos vai levar ao horizonte desejado, ambicionado, sonhado pela nossa inocência. E as lágrimas choraram-se, na pedra fria caíram, mas os risos ouviram-se no eco da lembrança. Palavras, jurar-te e prometer-te, pedir-te, declarar-te, palavras palavras, palavras em vão! Silêncio.....as nossas bocas vão-se juntar e o mundo vai parar. Silêncio... silêncio.

CS

14 de ago de 2009

' Uma Janela Aberta - Moon.

White moon
So lonely up there
Don’t you feel tired
Don’t you feel sad?

White moon
You must see everything
From where you are
And I often wonder “why are you so far”?

White moon, why do you have to be
So far away
A place where I can’t go?
Little delightful moon, tell me
What do you have to say
Tell me low…

Do you see our lives?
Do you hear our voices?
Don’t you feel like a lighting ghost?
Getting along with our noises?

Don’t you feel like coming down?
Don’t you ever get so lonely?
If you could answer all my questions
If you could, only…

Sometimes at night, I stand looking at you
When my eyes are made of tears
And whatever you are white or blue
You help me throwing out all of my fears

And so there you are up above
Floating ate the sky
You and your precious light
Flashing me with your love
Every single night
Surrounded by your innocent and silent cry!...

CS (há muitos, muitos anos atrás!)

BlogBlogs.Com.Br

11 de ago de 2009

' Uma Janela Aberta - Poema XII.

Em cada esquina
Dobra um sino lembrando-me
Que me perdi
E que já me encontrei de novo.
Que morri e que nasci de novo,
Afinal a vida está presente até na morte.
Mas nesta existencia absurda
E absorta. E infinitamente
Finita, humana, complexa, simples.
Anónima e Renascida,
Será sempre apenas e nada mais que
uma vela, num meio de um mar de velas.
Um pequeno ser abandonado por ter que ser apenas
Somente aquilo que nasceu pra ser.. Nada.

Porque serão sempre cópias de alguéns
Em sítios repetidos
Iguais a tantos outros algures
Nas ruas sujas e imundas
Da banal existencia.
E caminham passivas e impávidas,
Massas de
Personalidades
Nomes, ilusões,
Paixões,
E rostos cansados.
Cansa-os ser. Absurdamente
Existir.
Ter maneiras absurdamente diferentes
De igual ser, de igual sentir.

E continuo porém a ser sempre mais uma alma
Presa num corpo despido.
Parte de mim quer fugir, partir
Apenas por não querer ficar.
Parte de mim quer naufragar.

E dói-me tanto naufragar-me.

CS

4 de ago de 2009

' Uma Janela Aberta - Poema IX.

On the back door of a tavern at sunlight
I'm a whore. I am a saint. I'm a sinner.
I am the mother and the daughter.
The light and shadow.
The joy and the pain.
I'm the life and the death.
The law and the delinquency.
The housewife and the prostitute.
The child and the old grew lady full of wisdom.
I bring the best and I bring the worst out.

I do things I don't like to do, like everyone else.
Put up with horrible people, like everyone else.
Handing over my precious body and soul in the name of a future that never arrived, like everyone else.
Saying myself I haven’t enough yet, like everyone else.
Waiting just a little bit longer, like everyone else.

I was secure and full of myself,
Until one day I got totally lost on the road of life.
And that was just me. I'm a fighter, and I'm quitter.

CS

2 de ago de 2009

' Uma Janela Aberta - Sexo Tântrico e Sagrado (prosa poética V)

Estávamos sentados à luz da vela,
O corpo tremia, o coração batia forte,
Uma garrafa de vinho ao lado de nós, transpirávamos desejo - Não desejo que vemos, mas desejo que imaginamos;
O desejo solto no ar, que vibra, que enche a vida com a vontade ferverosa de ter alguma coisa, de ter alguém;
O desejo que move montanhas, que nos dá uma sensação de completa liberdade, desejo, apenas desejo, no seu estado mais puro, no seu estado mais divino;
Desejo que é a fonte de tudo o mais além, o mais abaixo, o mais acima, o mais infinito.

Desejo que traz o prazer sexual em si. Porque foi possível a experiência prazer sexual sem sequer tocarmos no outro. Energia sexual entra em jogo antes mesmo do sexo ter lugar.

Nus,
Sem se tocarem, estavam sentados à luz da vela,
O corpo tremendo, o coração batendo forte,
Uma garrafa de vinho ao lado deles.





Em quase absoluta escuridão, ele sabia o que queria
Ele sabia o que eu queria,
Mas ele não me podia dar nada, essa foi a maçã que Eva nunca deveria ter trincado.
Colocámos uma venda nos olhos e sentimos a nossa própria respiração, o inspirar e expirar que vai, que vem -
O ar, vital, mútuo.
Sentimos extrema dor em não tocar -
Não a dor que deixa ferida, mas uma dor divina;
A dor que nos guia a um tipo diferente de paraíso;
A dor no seu estado mais puro, levada ao extremo, levada ao limite, até um lugar de imensa e misteriosa paz, de um ecxtasy religioso indescritível;
A dor que se transforma em alegria; que nos leva ao limite.
A dor que trás o único sentido à vida: o prazer.

Expliquei-lhe então que só quem conhece essas fronteiras, esses limites, da dor extrema, sabe vida. Tudo o resto é só passar o tempo, repetindo as mesmas tarefas, envelhecer e morrer sem nunca ter descoberto o que estávamos afinal a fazer aqui - a escola? o trabalho? o casamento, os filhos, a televisão, a amargura, a velhice, a sensação de ter perdido muitas coisas, a frustração, a doença, a incapacidade, a dependência dos outros, a solidão, a morte. Somos seres humanos, nascidos cheios de culpa. Sentimo-nos aterrorizados quando felicidade se torna uma possibilidade real, e morremos a querer punir todos os outros, porque nos sentimos impotentes, inúteis e infelizes. As experiências mais importantes um homem pode ter são aqueles que o levam aos seus próprios limites - sexo, desejo, amor e dor são tudo experiências extremas. Cruzando as fronteiras do nosso próprio corpo, aí sim, encontramo-nos. Só sabemos quem somos quando nos deparamos com nossos próprios limites. Mas não é necessário saber tudo sobre nós mesmos ... o ser humano não foi feito exclusivamente para ir em busca da sabedoria, mas também para lavrar a terra, para esperar a chuva, plantar o trigo, a colheita do grão, fazer o pão.

Em quase absoluta escuridão, ele sabia o que queria
Ele sabe o que ela queria,
Mas ele não lhe podia dar nada, essa foi a maçã que Eva nunca deveria ter trincado.
Era um limite inultrapassável,
O fruto mais apetecido.



Utilizando apenas o meu sentido táctil, despejei meio copo de vinho na minha taça.
Ao preparar-me para encher o seu copo, ele pegou no meu pulso, impediu-me,
Pegou na minha taça e disse - esta é uma taça que iremos partilhar.
Tirei a minha venda, tirei a venda dele, olhei-o nos olhos.
Se partilhássemos aquela taça, estaríamos já a tocar um no outro;
Estaríamos a partilhar os nossos corpos, as nossas vidas;
Agora, era tempo de partilhar apenas as nossas almas, os nossos seres entrecruzados por um espaço e um tempo que só existiram ali -
- naquele sítio onde Deus fez um círculo, há muitos milhares de anos atrás.
O pecado original não foi aquele em que Eva comeu a maçã, mas sim a sua convicção de que era necessário partilhar com Adão precisamente o que ela tinha provado. Eva tinha medo de seguir seu caminho sozinha. Bem, certas coisas não podem ser partilhadas.

Bebi o meu vinho. Fui totalmente livre na minha entrega.

Beberam o vinho silenciosamente. Voltaram a encher o copo vezes sem conta. Voltaram a bebê-lo silenciosamente vezes sem conta. Porque o silêncio era o grito mais forte.
Ali, naquele sítio onde Deus fez um círculo, há muitos milhares de anos atrás.



E então nós tocámo-nos, em seguida; continuámos a fazer o amor que tínhamos vindo a fazer horas antes -
- foi o copo de vinho que transbordou.
O sexo é quando o copo está tão cheio de vinho que naturalmente transborda.
É a abundância natural, o querer sempre mais, mesmo não querendo nada em tudo.

Ali, naquele sítio onde Deus fizera um círculo, há muitos milhares de anos atrás,
Estes dois corpos transpirados de desejo,
Exaustos de uma dor divina, de um ecxtasy religioso, existencial,
Alcoolizados pelo sangue de Deus,
Tocaram-se. Amaram-se. Os copos de vinho transbordaram. As velas apagaram-se.


Não há maior prazer do que a de iniciar alguém num mundo desconhecido -
Tirar a virgindade alguém, não a virgindade do seu corpo, mas sim da sua alma.
Eu já tinha lhe ensinado tudo que eu sabia, cada partícula de mim.
E, como boa professora, eu também aprendi algo completamente novo ao ensiná-lo.


Andavam nus, por aí, estes corpos, sem se tocarem. Experienciaram múltiplos orgasmos físicos, e tantos mais espirituais. Estiveram num sítio a que um dia alguém resolveu chamar de Paraíso. Não precisaram de falar muito, mas conseguiram chegar ao corpo, ao mais íntimo do corpo, antes de se terem tocado. Foram livres na sua entrega mútua e amaram de forma mortal sem esperar absolutamente nada em troca. Descobriram aquilo que faz o mundo girar em torno do Sol: não a procura do prazer em si, mas a renúncia àquilo que é tido como importante. That was Sacred Sex.


Autoria de CS,
Inspiração em 'Eleven Minutes', Paulo Coelho.

28 de jul de 2009

' Uma Janela Aberta - Ondas (prosa poética III)

Já não tolero o tolerável nem suporto o suportável,vou fechar-me no casulo do que queria que tudo fosse mas que não é, do que queria que estivesse definido mas não está, no que queria que fosse um pouco menos forte, um pouco menos traição, um pouco mais verdadeiro, um pouco mais compreensível. Já não percebo o perceptível nem oiço o audível, não sinto o sensível porque talvez seja demasiado sensível pra mim. Não o admito, não quero admitir. Não quero saber, não o quero viver. Falsas manobras é o que em tudo consiste, esse tudo que nos gabamos que temos ou que queremos ter e procuramos. Falsas palavras é o que enche o vazio este espaço enormemente pequeno, e as pessoas, essas oh, mudam e voam com o tempo. É uma constante vadiagem, um andar não se sabe onde, uma bagagem esquecida ou infelizmente trazida. São palavras que fingem ser sentidas, um coração que finge chorar quando já tudo é gelo, quando tudo há muito esfriou. Ondas ondas, veem, vão, arrebatam, molham, enchem, esvaziam, destroem, limpam. Ondas, são ondas, são elas. E nós somos duas meras gotas desse oceano que nenhuma Onda jamais irá juntar.

CS

24 de jul de 2009

' Uma Janela Aberta - E Foi (prosa poética II)

Foram tantas as noites que nos amámos, que nadámos um no outro. Que no dia seguinte acordavamos ofuscados pela luz leve e límpida que nos despertava da escuridão da ilusão em que vivíamos: e afinal não eramos já nada um ao outro. Caminhavamos em direcções tão diferentes que nos encontrámos fugaz e inevitavelmente. Foram tantos os segundos, os minutos, os instantes, momentos que partilhamos, que já nada tinhamos em comum nem a partilhar. Foi tanto o amor, o ódio,a paixão,o desejo... que já nada tínhamos a amar nem odiar nem desejar juntos. Fomos o refúgio tão seguro de todos os nossos receios que nos tornámos no medo um do outro. Fomos tão amigos que nos tornámos inimigos. Fomos tão fiéis e tão leais. E no fim fomos tão cobardes. Quanto mais nos tínhamos menos pertenciamos um ao outro, e já nada de nós fazia parte, e tudo de nós fugia.

E foi tudo tão intenso, e foi tudo tão tudo, tão tão, que no fim apenas sobraram esses pedaços perdidos no tempo e espalhados na intensidade do nada que no fim nos rodeava. No fundo não passamos de meros pedaços de desejo que a paixão jamais irá juntar.

CS

22 de jul de 2009

' Uma Janela Aberta - Pegadas na Areia (prosa poética I)

Que Restou?

... e assim um ponto nos separa. Um ponto em frente ao horizonte onde em tempos nos encontrámos, nesta encruzilhada louca da vida, neste jogo sem regras, apenas as que nos impõem. E então fomos contra essas mesmas regras e então fomos aquilo a que têm a mania de chamar ‘felizes’. Por instantes encontrámos aquilo que tão incessantemente procuram, a chamada e tão aclamada ‘Felicidade’, que de ser tão esperada cansou-se e foi ao encontro deles, mas eles não deram por nada. E então começou, e então acabou. Mas então recomeçou e voltou a acabar. Porque então éramos crianças e não tínhamos medo de arriscar, de mergulhar – porque, então? Ainda não teríamos sofrido aquelas mazelas, ainda não teríamos o que temer. Porque então não deixámos que o Horizonte fosse o nosso limite, fomos até ele e mais além. E percorremos os horizontes de todos os Mundos, o que existe e os q dizem existir. E ainda aqueles que não existem. E então, que restou?

Meras pegadas na areia.

Mas então o Horizonte continuou lá... apenas deixaste que ele se tornasse no nosso limite.

Então aquele mar mansamente bravo continuou a beijar a areia, sem cessar, e essa, também ela, continuou a receber os beijos do mar. Esses sim, serão dois eternos amantes. Aquele fim de tarde parou no tempo.

E então?...

CS

18 de jul de 2009

' Uma Janela Aberta - Vida III.

A flor que cresce
O sol que rejuvenesce
(todas as manhãs, sem se cansar)

A tua alma que esmorece
(sim, a tua)
E o mar que beija a luz da lua,
(Todas as noites, sem se cansar)

Antes que a vida cesse
E ceda a essa escuridão que escorre
Beija-me, todas as tardes, numa esquina perdida
(sem te cansar)
Beija-me, beija-me, esse beijo que morre,
Beija-me, antes que chege a morte da vida.

CS