28 de jun. de 2009

' Uma Janela Aberta - Poema de Amor.

Dormir junto do teu peito
Com o bater do teu coração
É dormir no paraíso.

Duvidas?
Então chega-te aqui.
Mais perto. Assim, pronto.
Deixa-me sussurar-te ao ouvido
Tudo o que realmente sinto
Deixa-me dizer-te que esse tudo
Passa por me sentir a unica pessoa no mundo
Que tem a sorte de te amar.
Que és o único que me consegue despir
De preconceitos, tabus, medos,
Preocupações
E que por momentos eu me sinto verdadeiramente
Verdadeira e única
Inigualável, e importante.
E orgulhosa por poder dizer que
Ninguém pode dizer que
Alguém sente o mesmo.

Por instantes nada mais importa,
E a minha vida apenas serve para pertencer-te.
Por momentos somos um só, e somos mais que o Mundo inteiro.
Por momentos, nós – e com tanta beleza, essa imaculada beleza que as coisas têm apenas por existirem.

Mas a minha divagação perdeu-se algures entre
Sussurar-te ao ouvido que ficaria assim para sempre
E as palavras deixarem-se guiar pelo prazer desse assim.

Então só me resta acabar ao dizer,
Que estas palavras?
Não são nada, absoluta e certamente nada,
Quando a imensidão do teu olhar me envolve.

CS

24 de jun. de 2009

' Uma Janela Aberta - Poema I.

Escrevo aquilo em que acredito,
aquilo que desejo, aquilo sem sentido -
parto sem dor,
o teu simples beijo,
a utopia do perfeito,
do amor,
do homem que fez sem ter feito.

e não passo de uma alma com saudade,
uma alma ansiosa por sanidade, mas chamo
áquilo que acontece
quando o tempo se encontra no tempo,
quando o espaço se perde no espaço
de verdadeira liberdade que amo.

e apenas restam vestígios da impureza,
apenas vestígios de Saudade
de quando eras tu apenas mar, mar, apenas mar,
apenas uma onda que me rebatava o ser,
apenas uma onda que me vestia e me envolvia,
que tinha nascido para me amar.

ah! esta percepção imediata que nasci pra te pertencer...

CS

18 de jun. de 2009

' Uma Janela Aberta - Não sou Poetisa.

Apenas vivo em poesia, sem a escrever.
Vivo em silêncio num mundo gritante.
E vivo num choro
Sem derramar uma só lágrima.
Respiro liberdade
Num mundo tão cheio de regras.
Vivo para as sensações,
Quando todos procuram explicações,
Análises! Entendimento nauseante...
Ah! Que lógica entediante.
Que sono de não entender,
Que fome e sede de apenas ser...
Existir e ser e nada, e nada mas
E tudo ser.

Isto sim, é poesia.

Mas finjo. Finjo
E sempre fingi.
Qual teatro, qual encenação
Absorvida por sonhos, interpretada
Sem nunca o dever ser.

Mas sou banal. Sou banal
E sempre fui...
...banalmente importante.

Então fui, e sempre fui.
E fui, e importei, e finji,
E esqueci: e nunca ninguém soube.
E se soubessem, o que saberiam?

Talvez tudo e nada,
Talvez o soubessem saber
Talvez o devessem saber?
E talvez soubessem
Perceber que o mistério
Das coisas é precisamente e tão somente:
Percebê-las, analisá-las, explicá-las.

Amar? Não, nunca.
Amar com sentido, nunca.
O único mistério é não
(apenas) amar,
É não amar com sentimento,
Amar com sentido.

Ah, sensações...

CS

14 de jun. de 2009

' Uma Janela Aberta - Vida II.

Não fales comigo sobre a vida.
Não me digas o que pensas saber
O que todos pensam saber
E o que todos querem saber.
(saber, o q é saber?)
Não fales comigo sobre o que está
Certo e errado
O que é correcto e reprovável
O deus que existe e nos vê
Que tudo pode e todos castiga.
Não fales comigo sobre sentimentos.
Não me digas que
tenho de me resignar à realidade
De que estes são meras reacções químicas
Do nosso cérebro,
Se é que este existe,
E se realidade existe de facto.
Não, não fales comigo
Sobre a razão de ser dos seres, e do ser
E do nada
E do tudo
E do que se pensa saber
E daqueles que pensam saber
O que apenas querem entender.
Não me fales em filosofia
Nem em matemática
Nem em todos os saberes construídos pela humanidade
Não me digas, por favor, que tenho de me cingir
A esta pobreza de espírito dos homens
Que é quererem saber tudo
Até aquilo que não se pode saber.
Não me digas que tenho que me cingir
E tenho que falar contigo
Sobre algo que acontece, ou que pensamos que acontece
Porque o vemos. Porque pensamos que o vivemos.
Não, por favor, não me lembres
Que vivemos n’algo que se chama realidade
Que temos regras e normas orientadoras
Em que tudo tenta e pode ser explicado
Em que até os sentimentos podem ser cientificamente provados.
Não me lembres, por favor, que até se eu tentar escrever algo
que tenta explicar o porquê de me sentir tão só no meio de tanta gente
igual a mim
seja apenas pelo motivo de mais tarde vir a ser analisado
um texto, um poema
palavras que deviam ser lidas e guardadas
e nunca entendidas.
Nunca.
Por isso não fales comigo sobre a vida.
Amanhã acordarei de novo e me rendirei de novo
À pobreza de espírito que criou aparências e corrompeu mentes
Como a minha, a tua, a deles.
Amanhã acordarei de novo e te direi:
Não fales comigo sobre a Vida, porque eu tenho de me cingir a ela.


CS

11 de jun. de 2009

' Uma Janela Aberta - Mar.

Mar, mar, apenas mar,
Que terra banhas?
Que céu espelhas,
Com que ondas danças...
Mar, mar, apenas mar,
Que glória essa, que coragem
Que sem nunca se ter, se tem,
Que sem nunca ninguém saber,
Tu sabes
Que te vestes das minhas ânsias
Do meu sabor, do meu cheiro.

CS

8 de jun. de 2009

' Uma Janela Aberta - Flor Vermelha.

Foi a flor que deixaste cair
A lágrima que me deixaste chorar.
Foi o adeus que me fizeste ouvir
E a promessa que me fizeste quebrar.
Foi a nossa casa que outrora ergueste
Na Primavera da lembrança.
Foi o nosso abrigo que destruiste
Dexando apenas o Inverno como esperança!...
Então eras tu que te desprendias
Com a vontade de querer
Era eu que me esvaía
Em lágrimas por te perder
Éramos nós, apenas nós, presos nos nós da paixão
E partiste.
Partiste.
Partiste.
Então eu te digo
Como tua eterna amante
Nada deitámos por terra
Neste mundo de nós tão distante.
Nada no meio dos beijos apaixonados
E dos abraços calorosos
Nada do sabor do que restou
Esse sabor eterno.
Uma flor vermelha no branco do Inverno.

CS

4 de jun. de 2009

' Uma Janela Aberta - prefácio.

Estou a escrever um livro chamado Uma Janela Aberta. Eis um possível Prefácio:


Prefácio

Este livro é sobre amor. É sobre mim. É sobre o meu ego. É sobre identidade. É sobre dor. É sobre angústia. É sobre revolta. É sobre alegria. É sobre romantismo. É sobre sorrisos. É sobre lágrimas. É sobre dilema. É sobre inocência. É sobre inconsciência. Sobre (in)existência. Sobre ser. E sobre não ser.

É sobre efemeridade. É sobre o tempo. É sobre quando começa, e quando acaba, o tempo. Sobre o espaço. É sobre onde começa, e onde acaba, o espaço. É sobre o aqui, e o agora.

É sobre estar à chuva. É sobre tentar encontrar um lugar ao sol. É sobre estar na sombra. É sobre escuridão. É sobre querer brilhar. É sobre perfeição. É sobre Deus. Sobre o Meu Deus. É sobre anonimato. É sobre reconhecimento. É sobre ser igual: é sobre frustração. É sobre ser diferente: é sobre mentira. É sobre ser único, porque é único. É sobre a multiplicidade. É sobre fingimento.

Sobre a realidade. Sobre o sonho. Sobre a ilusão. É sobre superficialidade. É sobre profundidade. Sobre espiritualidade. É sobre o karma. Sobre a lei da atracção. Sobre o espírito. Sobre a alma. Sobre a minha alma. Sobre a nossa alma. Sobre o universo. Sobre libertação e sobre liberdade. É sobre o absurdo. Sobre o tudo e sobre o nada.

Este livro é sobre árvores. É sobre o céu. É sobre as nuvens. É sobre a lua. É sobre sol. É sobre praia. É sobre flores. É sobre jardins. É sobre refúgios. É sobre mar. É sobre vento. É sobre rosas. É sobre muros. É sobre paredes.

Este livro é sobre olhos. Sobre bocas. Sobre sons. Sobre sabores. Sobre texturas. É sobre o corpo. Sobre as sensações. É sobre sexo. É sobre música. É sobre o silêncio. Sobre arte. É sobre prosa. É sobre poesia.

Este livro é sobre crianças. É sobre bebés. Sobre homens. Sobre mulheres. Sobre rapazes. Sobre raparigas. Sobre meninos. Sobre meninas. Sobre idosos, sobre idosas. É sobre todo o ser humano em toda a sua forma e tempo de vida. É sobre a família. Sobre mães, pais, tios, tias, irmãos, irmãs. É sobre os amigos e as amigas. Sobre os namorados e as namoradas. É sobre ti, sobre nós. Para ti e para nós. É sobre personalidade. É sobre gente real, para gente real. É sobre a vida real.

É sobre conceitos: sobre o conteito de bom, e sobre o conceito de mau. Sobre o conceito de certo, e sobre o conceito de errado. É sobre o lógico: é sobre o entender, o analisar, o perceber, o racionalizar e o explicar. É sobre o irracional: é sobre a mente.

Este livro é sobre simplicidade, porque é simples: é sobre a vida, e sobre a morte. É sobre nós. E para nós.

CS

28 de mai. de 2009

' Ondas

Já não tolero o tolerável nem suporto o suportável,vou fechar-me no casulo do que queria que tudo fosse mas que não é, do que queria que estivesse definido mas não está, no que queria que fosse um pouco menos forte, um pouco menos traição, um pouco mais verdadeiro, um pouco mais compreensível. Já não percebo o perceptível nem oiço o audível, não sinto o sensível porque talvez seja demasiado sensível pra mim. Não admito, não quero admitir, não quero saber, não o quero viver. Falsas manobras eh o que em tudo consiste,esse tudo que nos gabamos que temos ou que queremos ter e procuramos. Falsas palavras é o que enche o vazio este espaço enormemente pequeno, e as pessoas, essas oh, mudam e voam com o tempo. É uma constante vadiagem,um andar não se sabe onde,uma bagagem esquecida ou infelizmente trazida. São palavras que fingem ser sentidas,um coração que finge chorar quando já tudo é gelo, quando tudo há muito esfriou. Ondas ondas, vêem, vão, arrebatam, molham, enchem, esvaziam, destroem, limpam. Ondas, são ondas, são elas. E nós somos duas meras gotas desse oceano que nenhuma Onda jamais irá juntar.

CS (escrita por associação livre há alguns anos).

24 de mai. de 2009

' Um perfeito Sorriso guardado pra Mim

Por mais que eu quisesse fazer
Uma linda canção
Um perfeito poema,
Sei que apenas me reduziria
A uma frase feita com pedaços de ti.

Que vou guardar
Nesse bau onde nada me foge
Onde escondo esse caminho
Onde existe um paraíso
E um perfeito sorriso
Guardado eternamente pra mim.

Por mais que estivesse destinada a ser
Uma personagem fugidia
O teu porto seguro
Sei que vives numa alquimia
Sei que menosprezas o futuro.

Mas nesta dança das palavras
Nada te restaria
Tudo te prenderia
A este lugar em mim.


Por isso é que eu choro

Até não haver mais lágrimas para chorar

Por isso é que eu grito
Até não haver mais voz para gritar
(Num grito que quer permanecer silencioso)

Por isso é que eu te amo
Até não haver mais forças para te amar.

CS

18 de mai. de 2009

' Como Tu.

Como tu
Eu nasci,
Como tu, como tu.
Errei, aprendi, cresci,
Como tu, como tu,
Como tu.
Ri e chorei,
Amei e odiei,
Criei, e fui,
Como tu.
Como tu, sou,
Não O nem A,
Mas Um e Uma.
Mais Um, mais Uma.
Como tu.
Um dia, como tu,
Vou morrer.
E ninguém sentirá a falta
Do ser que foi mas quis ser
Sem ter conseguido
Nem nunca provavelmente
Vir a ser
Ser.
Ninguém sentirá a falta,
Porque alguém é ninguém.
Alguém é mais Um,
Mais Uma.
Como tu. Ninguém.

CS, 01-02-2008

8 de mai. de 2009

' Poema.

O eco do fundo dos teus olhos
Refunde-me para as sombras do jardim
Que é o teu corpo.

E absorta fujo, escondo-me,
Porque te tenho, porque me tens,
Porque sou eternamente tua.

Mas algures no meio do fulgor
Do teu abraço
Surge um navio prestes a naufragar.
No jardim do teu corpo,
Navega em mar verde,
O navio prestes a naufragar.

Algures no meio de todo este fogo
Que arde num delírio delirante
Surge a minha âncora,
De ferro forte, feio, esquecido
De onde encontra meu porto seguro.

Oh, se o abandono soubesse
Onde encontrar essa estrada
Que me leva...

Se essa voz soubesse
Onde cantar minha tristeza...

Então saberia onde se encontra o princípio do fim
Encontra-se em ti e em mim,
E no barco que te naufraga,
Nas sombras que nos refundem,
No vento frio que se faz sentir
Nesse teu jardim, ao fim da tarde,
Na poeira de um entardecer já antigo...

Sim, o eco do fundo dos teus olhos
Refunde-me para as sombras do jardim
Que é o teu corpo.
E, sós, amamo-nos, como se jamais
Amanhã houvesse.

CS, 08-09-08

4 de mai. de 2009

' Cansaço.

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

28 de abr. de 2009

' Vaidade.

Sonho que sou a poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...


Florbela Espanca
(o poema que eu queria que tivesse sido escrito por mim, por dizer exactamente aquilo que sinto).

22 de abr. de 2009

' As Palavras que te envio são interditas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.



Eugénio de Andrade

18 de abr. de 2009

' Autopsicografia.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
que se chama o coração.


Fernando Pessoa

16 de abr. de 2009

' Tabacaria.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

8 de abr. de 2009

' Certain Thins are just Lost Forever.

(Estrofe 1)
I once wanted to meet
The man that would sweep me off my feet
Living in a great lovely home
With and endless garden full of roses
Under my dress.

('Bridge' 1)
But that was just a way to begin a story
That would never end
All I would actually do was
Keep running away from every little thing
I most wanted!

(Refrão 1)
He's gone somewhere, far away...
Certain things are just
Lost forever!
And didn't he just turn around
Neither did he
Dry my tears...


(Estrofe 2)
I once wanted the sunset
Never to end
But world is way to large
To wait for me to find myself
And in the middle of
Dusty streets... tired faces... dirty mirrors...
I would only keep findind
Someone else.

('Bridge' 2)
And that was just a way to begin
A story that would never end
All I would actually do was
Keep running away from every little thing
I most desired!

(Refrão 2)
He's gone somewhere, far away..
Certain things are just
Lost forever!
And didn't he just turn around
Neither did he
Come and dry my tears...

('Clímax')
Is anyone listening to my prayers?
Anyone out there?
Sometimes things aren't the same anymore
I know, sometimes
Voice keeps in a quite quite silence
Screams don't even seem to fill empty space...

(repetir Refrão Dois, 2 vezes, e Fim).

04-03-2009

Agora deu-me pra inventar letras de músicas... a melodia, o ritmo e a cadência da música estão na minha cabeça e eu passo a vida a cantá-la, mas só tive um ano ou 2 de formação musical e isso não foi suficiente, não sei escrever música... pra dar uma ajudinha.. os versos que começam com letra maiúscula é o início de uma nova 'frase' (se é que dá para entender)... e há dois refrões, duas estrofes e duas 'pontes' (aquela parte que faz a ligação entre a estrofe e o refrão) diferentes porque, lá está, o ritmo a que são ditas as frases muda e há algumas palavras novas que são introduzidas.. e o 'clímax' é aquela parte da música em que se grita, não sei o termo técnico...). Enjoy It @

4 de abr. de 2009

'

Desta vez, permiti-me a mim mesma apaixonar-me.
Não aguentava mais viver sem paixão,
Sem o desejo, sem a necessidade urgente
De fazer algo com verdadeiro fervor. De esperar alguém
Com verdadeira ansiedade. Tinha chegado ao meu limite.

Fui invadida pelo desejo mais verdadeiro e profundo -
- o desejo no seu estado mais puro -
- o desejo de estar perto de alguém.

Os encontros realmente importantes
Acontecem quando morremos e renascemos emocionalmente.
São planeados pelas almas muito antes
Dos olhos se cruzarem,
Das mãos se entrelaçarem,
Dos corpos se tocarem.
E eu estava realmente pronta.

Primeiro, dei-lhe um presente - algo realmente meu.
Algo que me pertencia realmente.
Um sinal de entrega e de respeito.
Uma parte de mim: do mau passado, do meu presente, do meu futuro.

Finalmente, os nossos corpos aprenderam a falar a linguagem da alma:
E apesar de não nos termos despido nem sequer tocado,
Nós fizemos amor.

CS, 22-03-09

(inspirado em: 'Eleven Minutes', Paulo Coelho)

2 de abr. de 2009

' Não tive tempo.

Não tive tempo, meu amor, não tive tempo!
Para deixar de ter pressa que passasse o tempo;
Para deixar que viesse o tempo de ter tempo,
De esperar e desesperar para ter tempo,
Para viver o momento
Para chorar por dentro,
Não tive tempo, meu amor, não tive tempo...

Não tive tempo, meu amor, não tive tempo!
De reparar que as palavras vieram e foram
Que morreram e renasceram;
Para deixar que fossem apenas gotas de água por cima de mar,
Ar e vento
E pétalas por cima de rosas,
Não tive tempo, meu amor, não tive tempo...

Não tive tempo, meu amor, não tive tempo
Para pensar bem e saber que tive todo o tempo
Do mundo.
Que deixei cair uma lágrima cá fora quando milhares já tinham caído
Lá dentro.
Que tive medo de ser feliz, e fugi, e fugi, e corri até não poder mais.
Que fugi até sentir dor, até sentir paz. Até sentir que o merecia.
Que fugi do tempo que tinha para ter tempo.
E não tive tempo sequer de ser livre na minha entrega.

Mas hoje tenho tempo. Tenho tempo,
De sobra até.
Tenho tempo para te esperar. Tempo para te abraçar,
Para me despir, para te sentir, para inexistir
Existindo.
Hoje tenho tempo e hoje sou amor. Hoje sou liberdade,
Sou toda a cor que destoa do azul do mar,
Tudo o que é diferente mas vai dar ao mesmo.
Sou todo o tempo, todo o tempo.
Sou a luz, sou a sombra, sou a santa e sou a pecadora.
Hoje sou música, hoje sou uma canção.


Danças comigo?

CS, 02-04-2009

28 de mar. de 2009

' Adeus.

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.



Eugénio de Andrade

24 de mar. de 2009

' Poema.


Comprei esta tela branca ao preço do silêncio...
Quero pintá-la. De transparente, talvez.
Choveram vitrais perfumados
E ideias coloridas.
Mas sujaram-me a tela de um Humano horrendo !
Abandonei-me, então, de sonhos,
Por serem tão Humanos. Queimei-me em velas
Até me perder numa bruma.
Mas... shh ! ainda oiço !
As auréolas dos anjos a cintilar !
Ainda escuto ! as canções tristes que me alegravam.
Os girassóis, o sol, o céu, as estrelas, a lua.
Ainda me vejo. Em douradas pradarias.
Ah ! e as casas de madeira...
(ainda sinto a brisa, e por saber senti-la sinto ainda que nunca
Haveria de o ter feito).

Hoje, escondi-me. Abandonada e absorta
De toda a luz com que fui abençoada, outrora.
Sou como uma flor que murcha sem sol,
Por não haver vida.
Quis tão pouco. E era tanto para este Mundo:
Tão pequeno !
Despi-me e, nua, pintei-me de Humana nesta tela.
Alheei-me. Pintei o alheamento
No silêncio. Nas palavras não ditas
Desenhei jardins, e flores, e sorrisos,
Com lágrimas escondidas.
Ao fundo, uma catedral. Olha os vitrais ! antes perfumados, agora
Obscuros. Secretos.

Pintei a tela de Humano.
Ela canta, hoje, o silêncio.
Esconde um pranto cego.
O som dos sinos sai calado.
E eu, Deliro !

CS, 04.08.08

21 de Março - DIA MUNDIAL DA POESIA @

21 de mar. de 2009

O eco do fundo dos teus olhos
Refunde-me para as sombras do jardim
Que é o teu corpo.

E absorta fujo, escondo-me,
Porque te tenho, porque me tens,
Porque sou eternamente tua.

Mas algures no meio do fulgor
Do teu abraço
Surge um navio prestes a naufragar.
No jardim do teu corpo,
Navega em mar verde,
O navio prestes a naufragar.

Algures no meio de todo este fogo
Que arde num delírio delirante
Surge a minha âncora,
De ferro forte, feio, esquecido
De onde encontra meu porto seguro.

Oh, se o abandono soubesse
Onde encontrar essa estrada
Que me leva...

Se essa voz soubesse
Onde cantar minha tristeza...

Então saberia onde se encontra o princípio do fim
Encontra-se em ti e em mim,
E no barco que te naufraga,
Nas sombras que nos refundem,
No vento frio que se faz sentir
Nesse teu jardim, ao fim da tarde,
Na poeira de um entardecer já antigo...

Sim, o eco do fundo dos teus olhos
Refunde-me para as sombras do jardim
Que é o teu corpo.
E, sós, amamo-nos, como se jamais
Amanhã houvesse.

CS, 08-09-08

21 de Março - DIA MUNDIAL DA POESIA :)

18 de mar. de 2009

' Poema.

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) :)

8 de mar. de 2009

O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) :)

4 de fev. de 2009

nao tenho projectos nem planos

Não tenho projectos nem planos.
Tenho sonhos.
Não tenho passado nem futuro,
Tenho uma bagagem cheia de presente,
De sorrisos e de sol.
Mas hoje acordei apaticamente
Não triste. Sem dor, sem ilusão,
Sem esperança. Hoje acordei a flutuar
Por não ter futuro, nem projectos,
Acordei com vontade de dormir mais
E sonhar para alcançar
Alguns sonhos.
Acordei cansada por falta de emoção
Por falta de querer, de não querer,
De ambicionar e não ambicionar,
Por falta de paixão.
Hoje acordei como sempre quis ser –
- nos tempos em que havia vontade,
Em que havia um querer - e estou aqui,
Apenas por estar. Ando por aqui, apenas por andar.
Sem prazos para a felicidade,
Sem pressas de viver.
Hoje acordei como sempre quis ser,
Senti a vida bem temperada.
E continua a (não) faltar aquilo que sempre me fez falta.

CS, 18-07-08.

29 de jan. de 2009

' Poemas de Amor.

Há poemas que curam
E matam no mesmo verso.
Há poemas autenticamente assassinos:

E esses são os poemas de Amor.

CS, 24-01-2009

24 de jan. de 2009

' Poema.

Os olhos dela fitam-me, brilhantes
Por não ser eu quem sou.
E pelas áleas do meu caminho
Fito rosas do pouco que alguma vez serei.
Os olhos dela fitam-me e sigo,
Sigo, calma, segura
De quem sou. E de repente
Extravagantes estrelas me rasgam,
Penetram-me, desnudam-me, mostram-me.
A mim,
Insegura, genuína.
Tão eu, tão eu, tão tua, tão deles,
Tão nada, tão tudo.
Tão tão.
Mas espero em vão. Espero em vão,
Espero livre, espero aqui.

E fico.

CS, 16-06-2008

18 de jan. de 2009

' O mundo só existe...

... porque nós o vemos.

CS

30 de dez. de 2008

' Vida.

A flor que cresce
O sol que rejuvenesce
(todas as manhãs, sem se cansar)

A tua alma que esmorece
(sim, a tua)
E o mar que beija a luz da lua,
(Todas as noites, sem se cansar)

Antes que a vida cesse
E ceda a essa escuridão que escorre
Beija-me, todas as tardes, numa esquina perdida
(sem te cansar)
Beija-me, beija-me, esse beijo que morre,
Beija-me, antes que chege a morte da vida.

C.S.

24 de nov. de 2008

' Tu.

Tu, que estás aí, que não existes.
Eu, que não sou nada e não creio existir.
Serei eternamente aquela que escreverá em segredo
Filosofias nunca antes escritas
Ou escritas tão silenciosamente quanto as minhas
E pensadas por mil almas que
Pensam saber a imensidade da razão de ser dos seres, e do ser
Se é que razão e seres coexistem de facto.
Aparte de tudo o que me preenche este vazio
Eu não sou mais que o vazio que preenche o tudo das coisas.
Estou em cada partícula do espaço,
Em cada partícula do ar que respiro,
Em cada verso, em cada pensamento que se dissipa no tempo
Esse
Que o Homem criou na esperança de orientar
Um estado de alma desorientado e inorientável
À deriva num mar sem rumo
Debaixo de uma Lua que queima
E um Sol que ilumina. Ilusões?
Certamente.
Também eu vivo numa.
Nessa que faz vaguear por aí todas essas almas desencontradas
Na esperança de se encontrarem ou serem encontradas!
Na ilusão de Te encontrar a Ti
Tu, que estás aí,
Tu que não existes.
Porque neste próximo instante
Apenas serei Eu.
O Nada que creio existir num tempo errante.

CS

12 de nov. de 2008

'


2 ANOS de existência deste blog :)

e pra 'comemorar', fica aqui um poema fantástico que alguém (não sei quem) me deixou em comentário (como resposta a este poema):


Olho-te sem te dizer nada o meu olhar
e a fuga é tua
e a fuga é minha
e essa triste indecisão é nossa!

Abre a porta, sai, respira e volta
e traz contigo teu verso e tua prosa
dos meus romances desejosos de ti
quando por ti minha alma roga.

Olha em nós o outro lado da palavra
e beija-me e abraça-me e diz
tudo o que preciso for para eu ser feliz...
e a tua alma,
e a minha alma.

Amor é feito lágrimas e sonhos
e a rotina é-nos o único mal enfadonho
sendo mesmo o deserto desses nossos oásis.

Desejo-te ver quando o meu olhar te olhar
e deles tudo nos explicar
dessas nada outras parasitas palavras,
sendo de amor, mudas de mágoas.

Perfeito :) @

24 de out. de 2008

' As Palavras fazem Amor

As letras fazem amor.
Contigo, comigo, entre elas.
Assim nascem as belas palavras
E delas as mais belas frases
Sem sentido
E incompreensiveis – é um dom.
Tomara a qualquer homem
Conseguir entendê-las e conhecê-las
Tão bem quanto entende e conhece
O corpo de uma bela mulher
Que dorme a seu lado
Com uma respiração sôfrega.
Mas shiu!
Isto é um segredo: como um mistério.
Silencioso.
Quase tão efémero quanto esta ideia,
Quase tão efémera quanto uma conversa entre mim e as palavras
...que queres ouvir.

( C.S., 22-11-2007 )

24 de set. de 2008

'

O eco do fundo dos teus olhos
Refunde-me para as sombras do jardim
Que é o teu corpo.

E absorta fujo, escondo-me,
Porque te tenho, porque me tens,
Porque sou eternamente tua.

Mas algures no meio do fulgor
Do teu abraço
Surge um navio prestes a naufragar.
No jardim do teu corpo,
Navega em mar verde,
O navio prestes a naufragar.

Algures no meio de todo este fogo
Que arde num delírio delirante
Surge a minha âncora,
De ferro forte, feio, esquecido
De onde encontra meu porto seguro.

Oh, se o abandono soubesse
Onde encontrar essa estrada
Que me leva...

Se essa voz soubesse
Onde cantar minha tristeza...

Então saberia onde se encontra o princípio do fim
Encontra-se em ti e em mim,
E no barco que te naufraga,
Nas sombras que nos refundem,
No vento frio que se faz sentir
Nesse teu jardim, ao fim da tarde,
Na poeira de um entardecer já antigo...

Sim, o eco do fundo dos teus olhos
Refunde-me para as sombras do jardim
Que é o teu corpo.
E, sós, amamo-nos, como se jamais
Amanhã houvesse.

CS, 08-09-08

29 de ago. de 2008

' Qualquer.


Sou uma qualquer,
Não diferente de todas as outras
Quaisquer,
Nem diferente de qualquer
Nenhuma.

Sou uma qualquer,
Tão igual por ser diferente

Mas não diferente por ser igual
A qualquer igual ser,
Enfim,

Qualquer alguma.

Sou uma qualquer,
Espero por qualquer sorriso,
Qualquer beijo e qualquer sonho
Em que sonhe que não sou, afinal,
Qualquer uma.



CS, 12.08.2008

29 de jul. de 2008

'

Porque a vida nem sempre tem que fazer sentido...
...hoje morro, para ser Tua.

29 de jun. de 2008

- Poema.

Foto: olhares.com

Nos recônditos da minha sensata lucidez
Encontro picos excêntricos, excentricamente
Loucos.
Nesta realidade que me prende, que me puxa,
Que me veste, que me insiste,
Revisto-me de liberdade, de abundancia
De luz.
Na amplitude da consciencia,
Na totalidade do ser que compreende,
Dobro esquinas de brilho,
Percorro estradas de extravagância,
Mergulho em mares de vento solto
Até doer.
Nesta alma matematicamente morta,
Estupidamente viva,
Até doer choro, até doer encontro o choro
Que me faz, apenas, ser.

CS, 08.06.2008

29 de mai. de 2008

- Hoje...

... eu amo o conhecido e o anónimo, o singularmente comum, o mais comum do essencial, o mais louco do desconhecido.

24 de mai. de 2008

Uma explosão de cores
E luzes ofuscantes a cada
Instante que
Brilha que
Ilumina se
Eu assim o quisesse.
Ah, que movimento, que
frenético, tão
cililante e luminoso, que
aquece e aquece, e aquece.
E arrefeceu.
Ah, que sombra, que
Escuridão que
Brilha.

CS. 25.01.2008