14 de jun. de 2007

-Ensaio Sobre a Cegueira



Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, é um livro que nos faz ver e, muito mais do que isso, nos faz temer a própria humanidade frente a uma situação de caos. A partir de uma súbita e inexplicável epidemia de cegueira, Saramago nos guia para a desorganização e a superação dos valores mais básicos da sociedade, transformando os seus personagens em animais egoístas na sua luta pela sobrevivência. O livro já começa duro e assustador. No segundo parágrafo deparamo-nos com o grito de uma personagem: 'Estou cego'. E a maneira como Saramago escreve, com poucos pontos, muitas vírgulas e discurso corrente, faz com que os acontecimentos passem pela mente do leitor com uma velocidade incrível: vão-se cegando vários personagens sem que possamos dar uma pausa para respirar. E quando finalmente resolvemos parar, percebemos que o autor não deu nome à cidade, não datou os acontecimentos e manteve os seus personagens anónimos, conhecidos apenas como 'a mulher do médico', 'o homem da venda preta', 'a rapariga dos óculos escuros' ou 'o cão das lágrimas'. Deixando este relato tão aberto à imaginação do leitor, é impossível não temermos uma verdadeira epidemia, imaginarmos como agiriam as autoridades numa situação como essa, como o medo faria vir à tona os instintos mais escondidos dos homens. No entanto, entre tantos cegos presos em um manicómio por ordem governamental, existe uma mulher que ainda consegue ver. É a esposa do médico, que faz lembrar outra personagem de Saramago: Blimunda, de Memorial do Convento. Blimunda tinha a capacidade de ver o interior das pessoas, mas nem por isso sentia-se afortunada, pois algumas vezes tinha que ver aquilo que não queria. Da mesma maneira, a mulher do médico é a única que pode ver as belas e horrorosas imagens descritas pelo autor, seja o lindo banho de chuva das mulheres na varanda ou os cachorros que devoram o cadáver de um homem na rua. Ela não sabe se é abençoada ou amaldiçoada por poder enxergar em uma terra de cegos. Da mesma forma, o velho da venda preta (apesar de antes da cegueira enxergar apenas com um dos olhos) relata o que acontece do lado de fora do manicómio, através das notícias do rádio e do que via quando ainda estava do lado de fora. É ele que abre os olhos do leitor para a realidade do mundo, o caos que se pode instalar a qualquer momento, as atitudes impensadas de quem está no poder tentando isolar o problema ao invés de estudá-lo. Regras são quebradas, pois ninguém mais vê quem está agindo errado; os mais fortes abusam do poder; e o instinto de sobrevivência vai tomando conta dos homens. Ao final de Ensaio sobre a Cegueira, o leitor está encantado com a literatura de Saramago e assustado com a dúvida que o autor nos coloca indiretamente: É assim que os homens verdadeiramente são? É preciso cegarem-se todos para que vejamos a essência de cada um? 'Se podes olhar,vê. Se podes ver,repara'.


Um dos melhores livros que já li,recomendo vivamente a toda a gente... é um livro muito fácil de ler,o estilo de escrita dele é viciante,e tem defenitivamente uma mão cheia de lições a retirar... é mesmo daqueles livros que uma pessoa fica a pensar no assunto,mesmo alguns dias depois de o ter acabado ;)




LC@

P.S. - só agora reparei que já cheguei e ultrapassei ligeiramente as 5000 visitas (desde que pus o contador no blog,que sinceramente já não me lembro quando foi)! Queria só agradecer a todos os visitantes assíduos,os que eu sei que o são e os que não sei... é para vocês que escrevo neste blog e graças a vocês que o tenho continuado (quantas vezes já me apeteceu acabar com ele...). =D Parabéns Blog ;)

6 comentários:

Anônimo disse...

Estou a ver que andas a ler muitos livros de Jose Saramago! Gostei da livro que descreveste e talvez o leia! Quando às 5000 visitas do teu blog, PARABÉNS! Eu não te disse que havia muitas pessoas a visitar o blog?! Continua com os teus posts maravilhosos e mais 5000 virão!

Américo Ribeiro disse...

Olá Lady

Eu tinha uma má impressão sobre ler Saramago, dei uma folheada rápida pelo Memorial do Convento e fiquei um "assustado" com a complexidade do raciocinio, mas devido ao teu comentário, vou ler este e talvez mude de opinião.
Quanto á tua popularidade, eu não duvidava, PARABÉNS.
xau, bjs

' Claudjinha disse...

Estou desejosa de ler Memorial do Convento, dizem q é 'uma seca',mas se é de José Saramago não deve ser. Também diziam q Os Maias era 'uma seca', e depois eu adorei!... Já que vou ter que ler 'Memorial do Convento' para o ano,junto o útil ao agradável :)

Bj*

' Claudjinha disse...

Estou desejosa de ler Memorial do Convento, dizem q é 'uma seca',mas se é de José Saramago não deve ser. Também diziam q Os Maias era 'uma seca', e depois eu adorei!... Já que vou ter que ler 'Memorial do Convento' para o ano,junto o útil ao agradável :)

Bj*

Mia disse...

Kiduxa.
Já tou fixe, obrigada.
Saramago, ou se ama ou se detesta.
Ainda bem que amaste.
Um beijo enorme a mamy
Mia

Shadows in Love disse...

Também já o li... e tal como tu amei, discordo contigo quando dizes que a escrita de Saramago é fácil, não é é fácil para quem está acostumada e quem realmente gosta de ler, eu comecei a ler Saramago por obrigação na Universidade e fiquei apaixonada pela sua escrita, para se ler Saramago temos que estar muito atentos as palavras... contudo concordo contigo oo livro faz-nos pensar e é mais que recomendável...